Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Pedro Uczai

64ª Sessão Ordinária - 21/06/1999

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Sr. Presidente e Srs. Deputados...

O Sr. Deputado Herneus de Nadal - V.Exa. nos concede um aparte?

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Pois não!

O Sr. Deputado Herneus de Nadal - Deputado Pedro Uczai, há um dispositivo regimental que determina que os apartes se atenham ao assunto que o orador esteja debatendo na tribuna. Mas, como eu ainda não sei o assunto que V.Exa irá falar, eu tomo a liberdade de solicitar este aparte.

Nobre Deputado, são vários os inscritos em Explicação Pessoal e, possivelmente, não chegará a minha vez de me manifestar no dia de hoje.

Mas, eu só gostaria, Deputada Ideli Salvatti e Deputado Pedro Uczai, de dizer o seguinte: não me espantaria nem um pouco se, brevemente, muitos Deputados que hoje dão apoio ao Governo do Estado de Santa Catarina, que pretendiam afastar por impeachment, por impedimento, o Governador e o Vice-Governador, viessem a esta tribuna defender o Governador Paulo Afonso e o Vice-Governador José Augusto Hülse, até porque, Deputado, processo um monte de gente tem! Agora, transitado e julgado, não há processo condenatório nem contra o Paulo Afonso e muito menos contra o ex-Vice-Governador José Augusto Hülse.

Entretanto, é bom sempre manter a coerência para não termos que usar sabão em pó e detergente para desdizer aquilo que dissemos na tribuna e o que afirmamos aqui ou lá fora, na rua, porque a população nos cobra coerência!

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Sr. Presidente e Srs. Deputados, das três questões que irei abordar aqui, uma inicia com as Letras.

Se foi inconstitucional a emissão das Letras, se houve falsificação de documento para viabilizar a produção das Letras e se foi inconstitucional o destino dos recursos advindo das Letras, só tem uma alternativa, que é uma perspectiva maquiavélica, que construiu um discurso, agora, nessa conjuntura, de que o Estado está quebrado, de que não tem recursos (mesmo que de 170, a receita do Estado já passou de 200 milhões).

Essa postura maquiavélica de que os fins justificam os meios retoma-se, agora, aqui no Estado: no passado o discurso era um e, agora, já se está, pela conjuntura atual, legitimando uma determinada postura que lá no passado se contrapôs.

Não é possível não esperar (e quando eu ouço o Deputado Ivan Ranzolin esperar que a Justiça defina)... Portanto, não precisa mais posição política! Qual é a posição política deste atual Governo? Qual é a posição política dos Parlamentares que, junto com a Bancada do PT, muitas vezes fizeram coro na discussão porque acreditavam na inconstitucionalidade e na falsificação de documentos? No caso das Letras, qual é a postura política neste momento?

O Sr. Deputado Ivan Ranzolin - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Pois não!

O Sr. Deputado Ivan Ranzolin - Nobre Deputado, vou dizer a V.Exa. a posição política adotada pela nossa Bancada com relação aos títulos.

Concluída a posição da CPI montada nesta Casa, nós encaminhamos o processo de impeachment. Não vencido esse processo, concomitante, ou até mesmo antes, encaminhamos uma ação popular, de autoria da nossa Bancada, que culminou com o julgamento de primeira instância condenando. Todos os pedidos que fizemos foram julgados procedentes, isto é, os títulos foram julgados nulos, sendo pedido o seu resgate e condenando os seus autores. E, recentemente, o mesmo Juiz tornou indisponível os bens de todos aqueles que participaram.

Então, nós temos uma sentença. Esta é a nossa posição. Agora, não temos mais na Casa a possibilidade, senão através da Justiça, de condenar os seus autores.

Com relação aos títulos que estão sendo discutidos, nós também temos uma posição clara. Esta não é uma posição nossa, não é uma posição da nossa Bancada; tudo o que tínhamos que fazer em relação aos títulos já fizemos, e os autores estão condenados e os títulos considerados nulos pela Justiça. Portanto, se transitar em julgado essa sentença em recurso no Tribunal de Justiça, os títulos vão ser considerados nulos. E nulo não gera direito a ninguém.

Há todo um trabalho sendo feito lá, mas se for aqui, na Justiça, transitado em julgado a nulidade dos títulos... V.Exa. sabe que em Direito uma questão nula não gera direitos, por isso a nossa posição é clara, e foi isso que disse no aparte que dei ao nobre Deputado Nelson Goetten, ou seja, que a nossa posição agora é no julgamento da Justiça, porque agora foi para lá que encaminhamos a nossa iniciativa, através de uma ação popular.

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Deputado, quando me refiro à posição política, não consigo deixar de perceber a relação entre PPB, PFL do Estado de Santa Catarina com os Senadores do PPB ou os Senadores do PFL no Congresso Nacional, que lá estão discutindo, na Comissão de Justiça e na Comissão de Recursos Econômicos, o desbloqueio das Letras, a questão da utilização dos títulos e a legalização desses títulos. O que foi feito lá é a legalização do ilegal, do inconstitucional, do imoral, do corrupto e do roubo de dinheiro público.

É nessa relação que eu estou fazendo a questão política. Ao mesmo tempo em que a Bancada diz que aqui, politicamente, tem essa posição, os Senadores do PFL e do PPB no Congresso Nacional legalizam o ilegal, legalizam o inconstitucional, legalizam o imoral.

Em relação à federalização do Ipesc, o Deputado Nelson Goetten, na mesma tese do maquiavelismo, vem a esta tribuna dizer com muita tranqüilidade que a federalização do Ipesc poderá salvar o salário atrasado dos funcionários públicos.

Deputada Ideli Salvatti, se eu devo para V.Exa. e não tenho como pagar, busco dinheiro no Besc, pago V.Exa. e assumo em dez anos o pagamento da minha dívida. No caso do Ipesc, mata você, mata o Ipesc e pega o dinheiro para si! Busca no Governo Federal os títulos, mata o Ipesc e paga aos funcionários públicos os salários atrasados. Mas esse dinheiro do Ipesc é dos funcionários públicos, não é do Governo do Estado! É o Governo que deve para o Ipesc. Se há federalização de dívida, é o Ipesc que federaliza com o Governo Federal e melhora o atendimento à saúde, o atendimento previdenciário. Mas o Governo apropriar-se...!

E há quinze dias, quando se falava em roubo, eu disse desta tribuna que o Governo Amin iria apropriar-se (tinha usado "roubar", que pode ser outra expressão) do dinheiro dos funcionários públicos e que iria fazer demagogia pagando os salários atrasados dos funcionários. Isso é apropriação indébita, e o Deputado Ivan Ranzolin, que é advogado, sabe o que isso pode ser considerado na Justiça.

Então, aqui a Bancada diz que não quer as Letras, mas os Senadores de Santa Catarina articulam-se com um Governo Federal corrupto e há o desbloqueio das Letras, e, agora, que a Justiça defina. Para isso, constróem um discurso no sentido de que aqueles que compraram os títulos não podem ser prejudicados, que são uns coitadinhos, os filhos vão passar fome, a família vai passar mal!

Os títulos ilegais e inconstitucionais pela maracutaia do Governo anterior agora servem para pagar a dívida, para fazer o Governo se preparar para as eleições municipais do ano que vem. Então, tanto as Letras quanto o Ipesc marcam uma postura política do PFL, do PPB.

Tenho ouvido várias vezes o Deputado Nelson Goetten falar sobre Municípios em crise, Poder Público desmantelado, funcionários públicos desrespeitados, Governo do Estado sem dinheiro, reforma da Previdência, que agora vai colocar 21 ou 22% para contribuição dos funcionários públicos. E o Deputado Volnei Morastoni declarou na imprensa (mas faltou trazer uma informação) que o Governo agora diz que é obrigado a implantar no Estado a reforma administrativa e a reforma da Previdência.

Não foi o Partido dos Trabalhadores que votou a reforma da Previdência e a reforma administrativa no Congresso Nacional; foi o próprio Governador Esperidião Amin (quando era Senador), foi Paulo Bauer, foi Paulo Bornhausen que votaram a reforma da Previdência e a reforma administrativa no Congresso, e agora estão colocando isso em prática em Santa Catarina, tirando mais recursos, mais contribuição previdenciária dos funcionários públicos do Estado.

Estão adotando o que votaram no Congresso Nacional. Eles é que legitimaram a tirada de recursos dos funcionários públicos. E quando aqui se estava votando o plano de saúde, eu pedi um aparte ao Deputado Jaime Mantelli (porque o autoritarismo da base governista impediu que nós usássemos da palavra, do momento privilegiado antes da votação do plano de saúde) para dizer que Hayek, papa do neoliberalismo australiano, radicado na Inglaterra, defendeu a seguinte tese em "O Caminho da Servidão", escrito em 1944 (depois se sofisticou mais com Milton Friedman, Karl Popper, como Roberto Campos e tantos outros): a democracia e a igualdade social produzem servidão.

Nesse livro, ele constrói todos os argumentos de como destruir os mecanismos democráticos da sociedade, de como destruir o Estado (e escreveu-o em 1944 com medo que o Partido Trabalhista ganhasse as eleições na Inglaterra em 1945, como de fato aconteceu). Dizia que o Estado que intervém na economia, que o Estado que intervém nas políticas públicas tem poder para distribuir renda, tem poder para democratizar os recursos, tem poder para democratizar a sociedade.

Então, o primeiro poder que tem que ser destruído é o Estado. Tem que torná-lo mínimo e passar esse poder do Estado para o mercado. E no momento conjuntural brasileiro, com essa transferência do poder do Estado para o mercado, este fica cada vez mais globalizado e cada vez mais mundializado.

Essa é a primeira afirmação de Hayek, que está sendo colocada em prática neste País por um serviçal do neoliberalismo chamado Fernando Henrique Cardoso, que não só privatiza tudo, não só endivida o País com dívida pública interna e externa, não só entrega o patrimônio nacional (as empresas), como entrega o solo e o subsolo. Parece normal permitir que o petróleo seja explorado pela Esso, pela Texaco. Está contruindo-se um imaginário social que é natural nessa bendita modernidade!

Mas pior do que isso: na condição de historiador, nunca imaginaria que, no final do século, o entreguismo chegaria ao extremo de o especulador estrangeiro coordenar a política monetária nacional, que é o Banco Central. Nunca imaginaria que, no final de século, haveria tanta violência, tanta avidez nesse processo de transferência do poder para o mercado mundial, com a política monetária adotada em grande parte pelo Banco Central norte-americano.

Não me espantaria se daqui a dois anos o Brasil não tivesse mais real. Mas como a Argentina caminharia para ter uma única moeda, que se chama dólar, o Banco Central norte-americano pensaria a política monetária no Brasil.

O Deputado Federal Germano Rigotto esteve aqui, na semana passada, fazendo um discurso bonito sobre reforma tributária. Dá para fazer uma síntese tranqüila de reforma tributária, e os Congressos vão votar o quê? A redução do custo dos empresários, para competir no mercado aberto. E reduzir o custo dos empresários para competir no mercado aberto faz-se de duas formas: a primeira, destruindo os direitos trabalhistas, desmontando os direitos trabalhistas para diminuir os encargos sociais.

Por isso que o Banco de Horas termina com a hora extra; por isso que a reforma trabalhista termina com o 13º. E vão terminar com as férias, com a licença-maternidade, já universalizadas; enfim, vão terminar com todos os direitos mínimos conquistados durante tantos anos de luta pela classe trabalhadora no País.

Essa é a primeira forma de reduzir o custo: destruir os direitos trabalhistas e previdenciários dos trabalhadores deste País. A segunda forma para reduzir o custo e competir no mercado aberto e globalizado é não pagar imposto, é não pagar tributo.

Por isso que naquela audiência, um representante das pequenas e microempresas catarinenses dizia que os banqueiros não pagam impostos, que os grandes empresários também quase não pagam impostos, que a reforma tributária iria sacramentar o seguinte: os que têm mais pagam menos, e os que têm menos pagam mais.

E parecia tranqüilo para os Deputados Estaduais que assistiam, neste Plenário, a fala do Deputado Germano Rigotto que era a melhor reforma, quando sabemos que vai cobrar dos consumidores o tributo.

Vai cobrar tributo de energia elétrica, de petróleo, de cigarro, de bebida alcóolica e de veículos, ou seja, vai cobrar dos consumidores de modo geral, e o grande empresariado dos outros setores estratégicos não vão pagar tributo neste País.

Portanto, é uma reforma tributária de classe extremamente neoliberal, porque o neoliberalismo defendia que os que ganham mais e os que ganham menos paguem igual, porque todos são iguais perante a lei. Essa reforma tributária nem chega a ser liberal, porque vai fazer com que os que ganham menos paguem mais e os que ganham mais paguem menos.

Essa é a lógica, esse o eixo das transformações que vão ocorrer no Estado e na sociedade. É por isso que não é preciso muito recurso no Estado, porque o Estado não se preocupa mais com quase nada. E mais do que isso: essas reformas todas, neoliberais, vão produzindo mais desigualdade social, mais contradições sociais e mais autoritarismo.

Hayek está sendo materializado na política econômica de Fernando Henrique Cardoso, já no segundo mandato, que faz este País ser cada vez mais subordinado, através de medidas provisórias, da destruição dos poderes democráticos. E quando Antônio Carlos Magalhães propõe a destruição do Judiciário, não é para resolver o problema da corrupção, pensar isso é uma ingenuidade, mas é para destruir os mecanismos jurídicos e os direitos construídos na sociedade brasileira democrática. Quando propõe destruir a Justiça do Trabalho, quer é destruir os direitos dos trabalhadores deste País.

A última instância que se quer atingir é a democracia e os direitos sociais, os direitos dos trabalhadores. Esse é o objetivo último de Antônio Carlos Magalhães quando propõe destruir o Judiciário.

Nós sempre defendemos o fim da corrupção em todos os Poderes, o controle externo do Judiciário, mas a perspectiva agora é chegar lá na frente para terminar com a CLT, com o salário mínimo, com a universalização dos direitos trabalhistas, sociais e com a sociedade que se quer fazer democrática.

Como disse Hayek, igualdade social e democracia produzem servidão, e Fernando Henrique cumpre à risca a produção de desigualdade social. E as quatro bases que lhe dão sustentação, desde que começou o Real e agora com a desvalorização dele, marcam isso. Não adianta os Deputados da base governista dizer que os agricultores vivem mal. Uma das bases de sustentação da estabilidade monetária e a transferência da renda para as classes dominantes é a agricultura.

Portanto, a agricultura é uma base de sustentação, dá estabilidade monetária com importação ou com a produção nacional. A segunda base de sustentação são os próprios assalariados. Como é que se admite que em cinco anos, com 75% ou 80% de inflação, os assalariados não tenham um real de aumento?! Os funcionários públicos, os assalariados também são a causa do aumento da desigualdade social?! Se há correção monetária de 80%, tem alguém ganhando e tem alguém perdendo! E é a classe trabalhadora que está perdendo 80%, no mínimo, do seu poder aquisitivo nos últimos cinco anos.

A terceira base de sustentação são os desempregados. Hayek, ao falar em como destruir, dizia que tem que se destruir o Estado. Também dizia que para produzir desigualdade social era só destruir os sindicatos, destruir as organizações de resistência. Dizia, ainda, que a forma de destruir a resistência, as organizações sindicais, a CUT, o Movimento dos Sem-Terra, o Movimento dos Agricultores é produzindo o desemprego.

Hayek constrói uma racionalidade política através da qual não é preciso produzir recessão, mas uma política monetária que produza desemprego. E o País, pela primeira vez, adotou na íntegra essa receita, porque a economia cresceu e o desemprego aumentou.

Antes de começar o Real, o desemprego ocorria quando havia recessão econômica, mas nos últimos cinco anos a economia cresceu e, mesmo assim, aumentou o desemprego aos milhões neste País: 19.9% em São Paulo, 20% em Brasília, 25% em Salvador.

O desemprego é a forma de destruir os direitos sociais, é a forma de implantar o Banco de Horas nas grandes agroindústrias e de os trabalhadores ficarem em silêncio, porque tem um monte de gente na fila para trabalhar e perder direitos sociais.

Então, o desemprego é uma racionalidade política que aumenta a desigualdade social neste País, racionalidade esta adotada pelo Governo Federal através de uma política monetarista.

A quarta base de sustentação é a política de juros, é para onde vai o dinheiro, para onde vão os recursos. Se saíram vinte bilhões da área rural nos últimos quatro anos, foram transferidos para algum setor. Para onde, então, foram esses vinte bilhões, que saíram da agricultura, dos funcionários públicos, dos trabalhadores, que perderam o poder aquisitivo?

E aí percebemos um banco como o Bradesco ter, no ano de l998, um bilhão e doze milhões de lucratividade. Em janeiro, com a desvalorização do real, os bancos tiveram mais lucro do que no ano inteiro de l998. V.Exas. irão ver o balanço do final do ano.

Então, o custo desse processo, dessa racionalidade político-ideológica, dessa política econômica que produz desigualdade social, faz-se pela destruição dos mecanismos democráticos também!

E quando se fala em destruir as resistências, o Banco da Terra é um dos instrumentos que destrói a reforma agrária no País, que mantém as classes hegemônicas na área do campo e o latifúndio improdutivo, porque o latifundiário, se não quer vender, não vende. Mesmo que tenha 50 mil hectares sem um grão de milho, ele tem iniciativa própria. Findo o instrumento da desapropriação, ele pode tomar a iniciativa de, primeiro, dos 50 mil hectares, vender os 10 mil piores; segundo, vender para quem quer comprar no valor de mercado; terceiro, vender à vista! Qual é o agricultor hoje que vende a terra à vista?! É dinheiro público à vista para o latifundiário, para o grande empresário rural, para a improdutividade deste País 500 anos! E se não quiser vender, não vende, pois não tem reforma agrária!

Então, são todos mecanismos, mas com um objetivo ideológico: destruir os movimentos sociais, o Movimento dos Sem-Terra, a resistência organizada, que, capengando, tenta resistir e conquistar alguns direitos. E a qualidade total no processo de trabalho é um instrumento ideológico funcionalista, que num outro momento poderíamos discutir aqui, é um instrumento de dominação e domesticação das classes sociais, em que o trabalhador trabalha mais. É aquela teórica satisfação para conseguir incorporar a filosofia funcionalista e aumentar o processo de domesticação das classes sociais.

Os juros são a última observação dessa manutenção da estabilização monetária. Quando começou o Real, a dívida pública interna era de R$56 bilhões, e há 20 dias a Folha de S.Paulo anunciou que já está em 500 bilhões e 788 milhões de reais! É uma violência, é um crime o que estão fazendo com este País!

Quanto à dívida pública externa, no período eleitoral, em agosto, quando pintou a crise da Ásia, o Governo emprestou em dólar para dizer que o real estava estabilizado! E a desvalorização do real no mês de janeiro significou, com a desvalorização, 40 bilhões de dólares a mais na dívida externa, porque, irresponsavelmente, criminosamente, manteve a dívida em dólar em agosto para manter a estabilidade e ganhar a reeleição.

Srs. Deputados, cento e pouco bilhões serão pagos este ano em serviço e juros da dívida. Não tem País que agüente! É como se na sua casa entrasse todo mês R$5 mil em receita e saísse R$10 mil para as despesas, para pagar as dívidas. Depois de um ano, você vende a casa, o patrimônio, a sogra, vende tudo e ainda fica devendo! Essa é a lógica de um Governo que constrói, segundo minha tese, a desigualdade social. Essa é uma condição do sucesso do neoliberalismo, do sucesso das classes dominantes.

Deputado Nelson Goetten, nesses seis meses que estou lhe conhecendo, acho, do fundo do coração, que V.Exa. tem honestidade no seu discurso e interesse quando se pronuncia sobre a crise, sobre o sofrimento dos trabalhadores, dos agricultores nos Municípios. Mas temos que buscar a seguinte resposta: qual é a política econômica que possibilita a uma mesma agroindústria, num lugar que está empobrecendo, ter um lucro de 171 milhões só num ano?

Então, tem que se ver esse processo contraditório, porque há alguns ganhando, e ganhando muito, e milhões de outros perdendo, e perdendo a própria dignidade, a própria vida neste País.

O Sr. Deputado Jaime Mantelli - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Pois não!

O Sr. Deputado Jaime Mantelli - Deputado, em primeiro lugar, quero cumprimentá-lo pelo brilhante pronunciamento que faz.

Gostaria de dizer que quanto aos mecanismos adotados pela política neoliberal, essa farsa neoliberal que o Governo Federal pratica e que está sendo seguida por vários Governos Estaduais, nós temos que pegar também o sentido prático da questão. E um deles, efetivamente, é o uso de recursos públicos, via BNDES, para financiar a automação de grandes empresas, para aumentar a sua produção, sob o discurso de que precisa produzir qualidade para o mercado exportador, mas promovendo, com esse mesmo recurso público, duas vertentes: o crescimento do patrimônio empresarial, concentrando riquezas de maneira forte no nome dos proprietários das empresas; e o financiamento do desemprego, na medida em que a mão-de-obra passa a ser dispensável, porque é substituída pelo maquinário moderno.

Com isso, cria-se uma situação insustentável para o trabalhador, que reza a Deus de joelhos para não ser o próximo desempregado. E daí os sindicatos não têm mais eficiência, a discussão com referência à cidadania não tem mais eficiência, porque tudo está centrado no pavor do trabalhador em ser o próximo desempregado, se ele não for um semi-escravo desse modelo disfarçado de modernização.

Vemos, por um lado, bancos que ganham bilhões (como V.Exa. citou) e, por outro lado, bancos que ficam absolutamente falidos em questão de minutos. Por quê? Porque a nossa economia está fundamentada não na política produtiva, não nos setores primários da economia (na agricultura, na indústria, na pequena e média empresa, etc.), mas em cheques sem fundo, que são os que patrocinam o mercado de ações neste País.

Então, nós temos efetivamente tristezas profundas, verdadeiros crimes de lesa-pátria quando esta Nação é tratada com tamanho desdenho, sem que haja uma consciência coletiva.

O Poder Legislativo tem muita responsabilidade nisso porque, quando se submete às vontades do Executivo ou vira simplesmente um caçador de Chefes de Poder Executivo, ele perde a sua finalidade, deixa de cumprir o seu papel. Pela prepotência do momento político, abandona a sociedade, e a sociedade vira refém desses mecanismos todos. Com isso, nós, desgraçadamente, podemos chegar à convulsão social, podemos chegar até a guerras civis, tão comuns por esse mundo afora.

Temos que usar esse momento para uma reflexão, e cumprimentamos V.Exa. por abordar a questão sob a visão de historiadores, que têm muitos escritos fundamentais para a formação da consciência da humanidade.

O Sr. Deputado Nelson Goetten - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Pois não!

O Sr. Deputado Nelson Goetten - Deputado Pedro Uczai, quero dizer que o fundamento do seu discurso tocou-me profundamente.

Dói saber que colocaram o cidadão brasileiro de joelhos. Estamos nos ajoelhando! Os espanhóis estão investindo e tomando conta do País, os portugueses também já começaram. Se continuar assim, logo nós vamos ter que arrumar alguém para levantar de novo a espada e dar o grito de independência! Estamos chegando a um ponto que precisando novamente dar o Grito do Ipiranga!

O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Agradeço pelo seu aparte, Deputado.

Quanto ao aparte do Deputado Jaime Mantelli, gostaria de considerar que o BNDES é um financiador não para a manutenção de empresas públicas e da universidade pública federal, mas para o setor privado.

Vejam o absurdo: o Governo é dono da Telebrás, vende para o empresário estrangeiro o nacional e dá o dinheiro para ele comprar! Praticamente, todas as empresas foram privatizadas neste País com o dinheiro público do BNDES, e com juros subsidiados.

Então, o absurdo não é só destruir o patrimônio, não é só construir uma política monetária desigual e contraditória, mas também pegar o dinheiro público e reduzir o corte na área da saúde, na área social e na área de educação. Reduziu em todas essas áreas porque é uma opção política desmontar, destruir o Estado, destruir as bases de sustentação e aumentar a desigualdade social, aumentar o autoritarismo na sociedade.

Queira Deus que o FMI seja banido deste País, que Fernando Henrique vá junto e que a direita desta Assembléia tenha a responsabilidade política e ética de denunciar isso. Porque a direita é responsável pelo aumento da desigualdade social neste País, e nós, da esquerda, ainda não somos capazes de mudar esse rumo.

Queira Deus que consigamos construir um novo projeto político e econômico, mais decente, no qual as pessoas estejam no centro...

(Discurso interrompido por término do horário regimental.)

(SEM REVISÃO DO ORADOR)