Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

98ª Sessão Ordinária - 29/10/2013

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, deputado Kennedy Nunes, quero debater novamente com v.exa., porque na noite de ontem citei seu nome em uma conversa que tivemos em virtude de uma notícia que foi publicada na televisão, dando conta de uma criança da cidade de Lages, que precisa ser internada com urgência em uma UTI para queimados. E o Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, tem meia dúzia de vagas apenas e estão todas lotadas.

Citei seu nome porque no ano passado a ala de queimados do Hospital Infantil de Joinville foi fechada, com o argumento de que não tinha retorno manter as dez vagas de UTI do Hospital Materno Infantil de Joinville abertas e com equipamentos caríssimos que foram comprados.

A organização social que administra aquele hospital chegou à conclusão, e convencendo a secretaria de estado da Saúde, de que não deveria manter abertas aquelas dez vagas, porque as vagas existentes no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, seriam suficientes para a demanda de Santa Catarina.

O estado de Santa Catarina, deputado Antônio Aguiar, autorizou uma organização social que administra o Hospital Materno Infantil de Joinville a fechar os leitos de queimados, de crianças queimadas. E a notícia de ontem é que uma criança de Lages, se não for internada em 24 ou 48 horas, terá que ser tratada de qualquer forma na cidade de Lages, com os meios possíveis evidentemente que a infraestrutura permite.

Trago esse elemento apenas para registrar a minha indignação e para dizer que a política de entregar estabelecimentos públicos de saúde para organizações sociais, para a iniciativa privada, que muitas se definem como empresas de saúde, é ruim para a sociedade catarinense e depõe contra o argumento do governador de que saúde pública tem que ser prioridade.

Em Joinville esse espaço foi cedido para aquelas especialidades que rendem mais, como a cardiologia, do ponto de vista monetário. E ainda cabe investigar para aonde foram aqueles equipamentos caríssimos que estavam lá para tratar crianças queimadas, porque tinham sido comprados com dinheiro público pouco tempo antes de terem sido abandonados.

Quero fazer esse registro indignado também no sentido de mostrar a importância do serviço público em saúde para qualquer sociedade. E é justamente por considerar a imensa importância que tem que nos indignamos quando entendemos que a política que está sendo executada é errada e trabalha contra o interesse público e da sociedade.

Uma criança de menos de quatro anos faleceu na última quinta-feira aqui no Hospital Infantil de Florianópolis, depois de um ano e três meses de tratamento contra o câncer. Ela era minha sobrinha, mas não quero falar sobre isso por ser uma questão familiar, mas, sim, falar da importância do serviço público. Aonde seria tratada a filha de um assentado da reforma agrária, ou seja, filha de um sem terra, uma criança com tumores no cérebro, se não fosse num hospital 100% público?

Ela ficou um ano e três meses em tratamento. E aqui quero falar sobre a importância do serviço público de saúde, apesar de tudo que dissemos sobre o Hospital Infantil, sobre as goteiras, sobre o tomógrafo que nos dias de chuva não funcionava, porque chovia em cima, sobre as demoras nas reformas, mas ficaram um ano e três meses tratando a pequena Priscila, insistindo até o último momento na perspectiva de tentar reverter o quadro, de prolongar sua vida.

Estou falando isso para mostrar a importância e parabenizar o conjunto de servidores do Hospital Infantil Joana de Gusmão, desde os serviços gerais, auxiliares e técnicos de Enfermagem, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas que de forma devotada dedicaram um ano e três meses para tentar salvar uma vida, para tentar combater um câncer.

Esse é o trabalho deles. Fizeram muito por essa menina, mas fazem todos os dias de forma continuada para centenas de crianças do nosso estado. E todos esses profissionais merecem, portanto, o nosso aplauso.

Evidente que não obstante a postura crítica que temos, quero registrar também a participação da própria secretaria da Saúde nesse processo, porque ela teve duas convulsões, lá no interior, e veio convulsionada até chegar aqui em ambulâncias do Samu, em helicópteros e aviões do governo do estado, inclusive.

Acho importante o fortalecimento dessa estrutura e a defesa de que continue 100% pública, que não meçam recursos e esforços só por cifrão. E nesse caso do fechamento das vagas de queimados do Hospital Infantil de Joinville o argumento usado foi o de que não havia retorno financeiro. Como falar de saúde pública pensando em cifrão? Como falar em salvar vidas, em defender uma vida, em diminuir a dor de uma pessoa medindo isso por cifrão? Não dá! É neste sentido e contra essa lógica que ficamos indignados, protestamos e criticamos autoridades e pedimos para o governador reverter essa situação para o bem da sociedade catarinense e para poder cumprir sua promessa de fazer da saúde pública as prioridades números um, dois e três.

Deputado Padre Pedro Baldissera, neste minuto que me resta quero informar que nós sepultamos a pequena sem terra Priscila no interior de Santa Cecília. Quando chegamos ao cemitério, deixamos os carros no pátio de uma serraria abandonada caminhando por dentro de uma floresta de pinus elliotis. O que sobrou por certo de uma antiga comunidade foi o cemitério. Evidentemente que isso precisa ser registrado, precisa ser entendido.

O processo de desenvolvimento econômico e social da nossa sociedade que aniquila, que mata comunidades inteiras na monocultura do pinheirinho. Isso preciso ser refletido por toda e qualquer pessoa que pensa em construir uma sociedade justa, uma sociedade onde as pessoas convivam, onde as pessoas de fato trabalhem para viver e não ao contrário; uma sociedade onde o esforço, o trabalho humano seja utilizado para o convívio saudável das pessoas e não ao contrário. Porque caminhar por dentro de uma floresta de pinheirinho até o cemitério para deixar num deserto de floresta de pinheirinho o corpo de uma pessoa querida é, com certeza, um sinal de que uma sociedade inteira está doente.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)