Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

47ª Sessão Ordinária - 18/06/2013

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, público que nos acompanha pela TVAL e pela Rádio Alesc Digital nesta tarde de terça-feira, quero aqui concordar plenamente com o deputado Antônio Aguiar neste debate que ele tem feito nesta tribuna acerca da necessidade de o governo federal retomar a rede ferroviária federal que foi privatizada na década de 90 dizendo que iria melhorar. Esse foi o discurso de todo mundo que privatizou. Inclusive, para seguir a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que reestatizou o sistema ferroviário, inclusive da mesma ALL - América Latina Logística. Alias, não só essa, mas outras, mais importantes, mais importantes ainda do que essa ex-empresa pública que precisa ser reavaliada na perspectiva da reestatização.

Então, quero parabenizar o deputado Antônio Aguiar e que a presidente Dilma Rousseff possa seguir, pelo menos, os passos e a forma da presidente da Argentina, que fez isso recentemente.

Mas, evidentemente, não poderia deixar de falar na tarde de hoje acerca dos acontecimentos das últimas horas, que são as manifestações populares. Cem mil pessoas na cidade do Rio de Janeiro. É um episódio que não acontece todo ano e nem todas as décadas. Cem mil pessoas, na cidade do Rio de Janeiro foram, em 1968, contra a ditadura. Depois, em 1984, na campanha pelas Diretas Já, depois em 1992 a favor do impeachment do ex-presidente Fernando Collor e ontem, 17 de junho de 2013, por conta de algum motivo que parece não ser compreendido, ou não foi compreendido antes pelas autoridades de plantão. E aí quero ser claro e começar de forma clara, não tem ninguém que tenha governado o Brasil nas últimas décadas, pelo menos desde 1964, ou precisamente, de 1º de abril de 1964 para cá, que esteja isento de responsabilidade nesses episódios.

É claro que a questão Copa do Mundo salta aos olhos, porque temos acompanhado que existe no ar nestes momentos, nos últimos anos inclusive, não só agora, o ufanismo parecido com aquele da década de 1970. Parecido! É evidente que quem tem mais a perder, parece, é o Partido dos Trabalhadores, que governa hoje. Mas não me parece que os grandes partidos que governaram o país até recentemente e querem voltar, não teriam feito também a mesma festa e, me perdoe a expressão, a mesma orgia com a possibilidade de sediar uma Copa do Mundo no Brasil, que a última vez foi em 1950, faz tempo!

Tanto que está em sintonia o discurso das autoridades pelo Brasil afora. Quem acompanhou os meios de comunicação, os veículos de comunicação nacional, na última sexta-feira, no último final de semana, pode ver os discursos do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, dá a impressão de que eles entraram numa salinha, combinaram o discurso e saíram para dizer exatamente a mesma coisa. Mais um episódio da conformação do partido único nacional.

Isso é evidente, porque estão todos defendendo os mesmos interesses de que a realização dos grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, é boa para todo mundo, porque dá dinheiro. Na verdade dá dinheiro aos grandes monopólios não só dá área dos esportes, mas das empreiteiras também.

Quero deixar claro aqui, deputado Padre Pedro Baldissera, que não compactuo, não faço parte de um discurso que tenta direcionar dizendo que a culpa é da presidente Dilma Rousseff, do PT. Ano que vem tem eleição, querer tornar isso um palanque eleitoral... Embora haja reflexos, quem está no poder tem mais prejuízo.

Agora, é preciso servir de lição. De minha parte quero aqui dizer que, apesar de alguns fatos lamentáveis, é bom para a sociedade brasileira que esteja acontecendo isso, e merecem aplauso aqueles milhares e milhares de jovens e alguns adultos que têm construído e participado desse movimento.

Quanto à Copa do Mundo, e nós vamos ver, a barricada é feita não sei a quantos metros do estádio, e dali para dentro só entra quem a Fifa autoriza. A Fifa desnacionalizou parte do território nacional. E vai ser ali, daqui até o final do mês, que vão acontecer os maiores protestos.

Todos nós concordamos, todos nós não, o Brasil inteiro, os poderes constituídos, o Congresso, em mudar a legislação nacional porque a Fifa exige, restringindo, inclusive, direitos elementares da população por causa da Copa do Mundo.

Tem-se que pagar o preço por essa decisão. São bilhões, que dariam para dar gratuidade no transporte para o conjunto da população brasileira por um bom tempo.

Por coincidência ou não, na última quarta-feira e na última quinta-feira, eu falei aqui do transporte, acerca, inclusive, da greve que houve na capital, e que todo mundo esbravejou contra os trabalhadores e contra o sindicato dos trabalhadores. Todo mundo não, os formadores de opinião.

Tenho falado reiteradas vezes aqui que é necessário colocar na pauta a necessidade de tornar público e gratuito o transporte coletivo. E quando falei pude sentir aqui dentro, inclusive, alguns risos discretos, evidentemente, como se isso fosse uma loucura.

Por que será que não se pode pensar o transporte coletivo assim como se pensa a saúde, que, aliás, deveria funcionar muito melhor se tivesse prioridade? Neste aspecto concordo com o deputado Maurício Eskudlark. Como na educação, em que se matricula o filho na escola mais próxima e ninguém pergunta quanto o pai ganha por mês, para poder fazer isso. Por que o transporte coletivo não é pensado nesta lógica? Seria interessante para o conjunto da sociedade.

Hoje é dominado por um grupo pequeno, minúsculo, de empresários, em prejuízo do conjunto da sociedade, inclusive dos outros empresários, que têm que ajudar a pagar a conta do transporte dos seus trabalhadores. O trabalhador paga uma parte e o patrão outra. Esse dinheiro ficaria girando nas cidades. O Brasil tem um dos transportes coletivos mais caros do mundo.

Peço à assessoria que apresente uma foto que indica isso. Foi medido em minutos em matéria da Folha de S.Paulo.

No Brasil o trabalhador precisa trabalhar 13 minutos para pagar a passagem de ônibus. Na Argentina - gostamos tanto de achincalhar os argentinos, especialmente nas questões de futebol - o transporte é o mais barato dessas cidades citadas. Em Buenos Aires o trabalhador destina 1min44 do seu salário para pagar o seu transporte. Em São Paulo, 13mim, dez vezes mais. No Rio de Janeiro, 12min. Das cidades brasileiras, as mais caras são estas cidades citadas.

Peço para apresentar a segunda foto, meu tempo está acabando, para mostrar que o transporte gratuito não derruba governos, não derruba sistema social. Algumas cidades brasileiras têm transporte gratuito, como Agudos, em São Paulo, e outras cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.

Em Sydney, na Austrália, uma cidade com quatro milhões de habitantes, o transporte de ônibus é gratuito. E é um país, evidentemente, capitalista.

E não se faz isso por cultura, por ideologia, na verdade está impregnado na consciência das autoridades, dos empresários, e também do conjunto da sociedade que o transporte é um meio de alguns ganharem dinheiro. E evidentemente que em algum lugar, em algum momento estoura, e está estourando agora, o que é bom para o conjunto da sociedade.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)