Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Francisco Küster

60ª Sessão Ordinária - 31/08/2004

O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Sr. Presidente, Sras. Deputadas, Srs. Deputados, senhores da imprensa e senhores que nos assistem nesta tarde, aproveitando esses dez minutos que são devidos ao meu Partido, quero discorrer sobre o processo político eleitoral.

Com uma experiência de 36 anos de vida pública, com treze eleições disputadas, sendo quatro derrotas e nove vitórias, nós já vimos de tudo no que antecede ao desfecho das eleições. Os ânimos se acirram, o debate se torna acalorado e isso é absolutamente compreensível, desde que os excessos não descabem para o lado pessoal. Mas o debate no campo das idéias é extremamente salutar.

Creio que a classe política deve muito à sociedade catarinense nos seus Municípios, a esse bom e generoso povo tão paciente, tão esperançoso e que espera de nós, políticos, o encaminhamento, a compreensão e o entendimento nas resoluções dos problemas que o aflige. O povo espera muito de nós, políticos, e não rara vezes, os políticos, dentre os quais eu me incluo, se perdem no acalorado do debate e na empolgação do discurso. Na hora do aplauso, da ovacionação, nós acabamos cometendo alguns excessos. Mas se o político tem princípios e comete os excessos num devaneio, em seguida, retoma a sua a caminhada, o seu norte, o seu projeto de vida, a sua conduta.

É isso que o povo espera: que a pessoa saiba, mesmo resvalando nos seus excessos, se recuperar e continuar a sua caminhada na luta por melhores condições de vida do seu povo, da sua gente.

Temos nos deparado, Sr. Presidente e Srs. Deputados, com algumas questões que nos deixam um tanto quanto desanimados nessa caminhada. Uma delas é quando nos deparamos com eleitores viciados porque foram induzidos ao vício de pedir e de cobrar os compromissos dos políticos, de cobrar pelo voto. Isso é uma coisa extremamente perigosa, mas não aconteceu por um desvio de conduta do povo, da sociedade. Aconteceu pela postura de maus políticos, principalmente de políticos endinheirados.

O povo, quando encontra um Deputado, diz: "Eu estava lhe procurando e tal." Isso tem ocorrido comigo e quero confessar publicamente que fico aborrecido. Eu cumprimento aquela pessoa respeitosamente, porque é da minha formação e do meu caráter, mas em seguida vem o bordejo, que é um negócio muito ruim e muito complicado.

Penso que a democracia é complexa e difícil, mas não existe um modelo melhor do que a democracia, eis que todos têm deveres para com a sociedade, para com os que ele representa, mas também todo mundo tem direitos. E daí é preciso a grandeza de quem se prepara para a incursão na vida pública, para ser político: honrar os seus compromissos e ter o cuidado e o zelo nos seus excessos.

Eu ouvi há poucos dias certas coisas que depõem contra a classe política: algumas afirmações oriundas de uma figura com um mandato parlamentar e que me deixaram entristecido. Não sei se estou encerrando a minha vida pública, mas só sei dizer que tenho 36 anos de vida pública, que já fui o Vereador mais jovem em Lages, que também já fui o Deputado Estadual mais jovem, eleito em 1974, e que já estou com meus 60 anos, e gostaria de ver uma sociedade mais exigente. Estamos na idade da experiência e da maturidade, Deputado Onofre Santo Agostini, e também já cometemos os nossos desatinos.

Em alguns fóruns e até em tribunais já tive que me explicar por excessos verbais. Por isso, sei muito bem o que estou dizendo neste momento. Já enfrentei situações de extremo constrangimento e por opinião firme fui até o julgamento para não aceitar o vexame de uma retratação.

Portanto, nós, que temos a obrigação de construir o fortalecimento do estado de direito democrático, de buscar com competência e com lealdade ética, acima de tudo, o estado do bem-estar social do povo.

Precisamos ter um pouco mais de cuidado com os nossos excessos verbais, até para não afrontar a maioria da população, sabedores que somos das dificuldades de vida dos pobres, eis que pelo menos um salário acima da média nacional nós temos.

Alguns chegam às pessoas simples e tentam resolver os problemas dessas pessoas com alguns reais, e com isso sentem-se descompromissados da lealdade e da fidelidade ao compromisso assumido quando ainda em campanha.

Faço essas colocações hoje devido à preocupação que estou vivendo quando me deparo com uma série de coisas que depõem contra a classe política. E daí encontramos também figuras que, inclusive, não contribuem em nada para com a sociedade, quando dizem o seguinte: "Não gosto de político, não gosta de política, odeio político e odeio a política"! E isso dito por algumas figuras com estabilidade plena, com um salário de dar inveja a Deputado, e que ousam dizer essas barbaridades, ignorando que foi por conta de decisões políticas que conseguiram galgar uma posição, que foi por conta de decisões políticas que lhes permitiram projetos que facilitaram a caminhada, a evolução dessas pessoas. E a esses, sim, eu atribuo um adjetivo forte: ignorantes. E são figuras com faculdade que dizem que odeiam política e político.

Estou dizendo isso porque hoje eu me deparei com um cidadão e, ao cumprimentá-lo, ele me disse o seguinte: "Olha, é tudo farinha do mesmo saco"! Ele era um despeitado, um cidadão com curso superior, funcionário graduado de um tribunal - não era Juiz, evidentemente, nem Promotor, nem Magistrado, mas um funcionário graduado.

Ele nos jogou na vala comum, Deputado Cézar Cim. Nos somos um estrato da sociedade, e nela há de tudo: tem o velhaco, tem o traficante, tem muita coisa que não presta. Nós somos o estrato, então tem que ter pelo menos um pouquinho disso aí nesse estrato, que somos nós aqui da própria sociedade.

O Sr. Deputado Cézar Cim - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Pois não!

O Sr. Deputado Cézar Cim - Deputado Francisco Küster, V.Exa. colocou uma frase que eu ia enunciá-la aqui de outra forma. V.Exa. disse muito bem: nós somos o estrato da sociedade e a sociedade não pode se arvorar na injusta pretensão de querer que a classe política seja diferente dela.

Então, essa pessoa que o enfrentou e que disse que odiava a política, é a sociedade da qual nós surgimos.

Disse um grande letrado catarinense, o professor Alcides de Abreu, que sociedade nenhuma é melhor do que seus líderes. Então, a sociedade que gera lideranças que ela acha que não são boas, não tem a legitimidade para reclamar. A classe política só vai mudar quando a sociedade mudar.

Senti na carne, Deputado, também o que V.Exa. sente nestas oportunidades, principalmente quando se ganha os votos dados com amor, pelo passado, pela luta e pelo sacrifício. Aí nós sentimos.

Quando o voto é comprado não se dá bola para esse valor! Mas quando se ganha o voto pelo trabalho, que é o que V.Exa. sempre tem feito... Por isso tomei a liberdade de lhe apartear.

O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Agradeço pelo seu aparte.

Era o que tinha a dizer, Sr. Presidente e Srs. Deputados.

(SEM REVISÃO DO ORADOR)