79ª Sessão Ordinária - 16/10/2008
O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Sr. presidente, srs. deputados, telespectadores da TVAL, ouvintes da Rádio Alesc Digital, público que participa desta sessão no dia de hoje, também quero dar a minha contribuição neste debate sobre a crise mundial, para aonde ela vai, quais as soluções e quem vai pagar essa conta e a experiência neoliberal, o processo de globalização que poderia ser chamado de globalização ou o setor financeiro hegemonizando os processos econômicos mundiais, construindo as dinâmicas e as relações entre os países, tendo, inclusive, em vários períodos, os instrumentos dos organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial, dando o tom das relações do dinheiro, do dólar e a relação com os países e a subordinação de diferentes políticas econômicas dos países, principalmente, em desenvolvimento ou pobres e de terceiro ou quarto mundo, como são as denominações dos vários livros de economia, para manterem essa lógica mundial, produzindo desigualdade social, desmonte de políticas públicas na década de 80 e 90, mais injustiça e desigualdade.
O capitalismo neoliberal hegemonizado pelo setor financeiro, pelos instrumentos multilaterais, produziu um mundo desigual, um mundo com mais de um milhão de pessoas com fome, na miséria, sem emprego, sem saúde, sem educação, sem casa. E esse mesmo mundo, esses mesmos instrumentos, essa mesma experiência liberal, capitalista, agora, novamente e contraditoriamente produz diferentes conseqüências. O próprio país hegemônico do mundo, como os Estados Unidos, os 27 membros de estados, os 27 países europeus dizem agora que terão que refundar o capitalismo. Refundar o capitalismo, porque o capitalismo neoliberal não serve mais para o mundo, nem para os países desenvolvidos. E a experiência norte- americana dos Estados Unidos mostrou, inclusive para os países desenvolvidos que isso não serve mais. Até é constatação, é diagnóstico e são ações.
Mas, quais são as respostas dos governos? Tentar salvar esse capitalismo. Salvar os próprios bancos, estatizá-los ou comprar ações dos próprios bancos. Até aí, é o óbvio diante da própria crise. Mas quem pagará a conta? Provavelmente, o setor financeiro. Quando os países europeus anunciaram socorro de US$ 3 bilhões, as bolsas no mundo subiram, principalmente do setor financeiro. Aqui no Brasil o setor financeiro subiu 20%, 21%, mais de 30% dependendo do banco, ou seja, as ações dos bancos do setor financeiro revalorizaram-se quando os governos, os estados, o poder público injetou dinheiro neste setor. Alimentá-lo e, muitas vezes, reproduzir esses mesmos instrumentos com pouco mais de regulação, um pouco mais de controle, não é a solução! Essa não é a solução!
Então, quero apontar duas questões centrais: a desigualdade e a fome vão continuar ou aprofundar agora, porque é o povo que vai pagar a conta? Vai diminuir o emprego no mundo? Vai diminuir o preço do commodities? O povo vai pagar a conta? Vai diminuir a atividade produtiva e econômica dos países importadores? O povo que vai pagar a conta? Vão diminuir as exportações de milho, de leite ou de outros setores? O povo brasileiro vai pagar a conta? Na área da avicultura as indústrias já decidiram reduzir 5% a produção aqui em Santa Catarina. Quem vai pagar a conta? Os agricultores, os trabalhadores? O povo vai pagar a conta?
O deputado Professor Grando questionou aqui por que os governos, os estados não se preveniram com investimentos em setores estratégicos para 10, 15 ou 20 anos, independente do setor financeiro. E digo, não só não controlaram e não regularam, mas agora vão salvá-lo para não trazer maiores conseqüências para o conjunto desses países. Mas se não cuidarem daqui a 10 ou 15 anos vai-se reproduzir uma nova crise, mantendo esse setor financeiro hegemonizando o setor produtivo, porque aí os países precisam aumentar a taxa de juros.
E no Brasil, quem vai pagar a conta? Porque esse setor da política monetária brasileira, a partir do Banco Central não tende a reduzir a taxa de juros, mas aumentá-la para segurar o dólar, os recursos aqui, para ter crédito no Brasil. Então, efetivamente quem vai pagar a conta dessa crise pelas decisões do governo vão ser o próprio povo e os mais pobres do mundo.
E a segunda solução: por que é que ao invés de refundar o capitalismo não se começa a discutir um novo jeito de pensar a sociedade e a relação com os países? Uma nova forma de integração no mundo, com energia renovável limpa; uma nova forma de integração no mundo, que são o alimento e a comida central; uma nova forma de integrar o mundo com ciência e tecnologia socializada; uma nova forma de integração do mundo com educação para todos da humanidade; uma nova forma de integrar o mundo com o diálogo entre as culturas e os povos, numa nova perspectiva, não armamentista, não pelo poder, não pela opressão aos povos quando se está em crise, mas construir uma sociedade mais humana, mais igualitária, mais justa e solidária para além dessa experiência capitalista.
O Sr. Deputado Professor Grando - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Pois não!
O Sr. Deputado Professor Grando - O nosso diagnóstico é perfeitamente coincidente e realmente sempre fica aquele grande questionamento.O que fazer? E essa crise é tão grande que até um novo termo criaram: "panicar", que quer dizer não entrar em pânico. Então, não podem "panicar" o sistema financeiro e as bolsas, como está ocorrendo.
Agora, nós temos essa visão humanista, essa visão de que a crise é um momento, como a própria palavra na sua origem grega, que é o momento de novas oportunidades e de tentar, como nunca vamos perder a esperança, de melhorar o mundo no seu relacionamento e na sua nova forma econômica e de desenvolvimento. É uma oportunidade, sim, de se rediscutir a crise, porque aquele modelo liberal, aquele modelo financeiro hegemônico, como v.exa. coloca, mostrou que na sua plenitude faliu por si só. Então, nós temos que buscar novas formas. E a forma é a do trabalho, é a forma da valorização, do suor humano e desse relacionamento.
O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Eu incorporo o seu aparte ao meu pronunciamento e quero dizer que quem sabe as tantas escolas de inglês espalhadas pelo Brasil como moda para fazerem estágios nas escolas americanas digam: Chega de Estados Unidos! Chega de americanos pisando e humilhando os povos da América Latina!
Em segundo lugar, quem sabe comecemos a aprender a língua espanhola, deputado Professor Grando? Quem sabe as nossas escolas ensinem o espanhol, para integrarmos a América Latina e construirmos uma grande nação latino-americana economicamente desenvolvida, sim, mas socialmente justa e ambientalmente sustentável. Nós temos terra, temos povo, temos ciência, temos tecnologia para se contrapor a essa nova lógica. Aí, quem sabe, segundo o velho ditado chinês, a grande oportunidade que a crise possa dar é construir uma América Latina virando as costas para os americanos, virando as costas para essa experiência neoliberal, globalizante do setor financeiro de que agora nós vamos pagar a conta. Chega desse imperialismo! Chega dessa dominação americana! Chega de inglês domesticando a nossa cultura!
O Sr. Deputado Sargento Amauri Soares - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Pois não!
O Sr. Deputado Sargento Amauri Soares - Muito obrigado, deputado Pedro Uczai.
Quero parabenizar v.exa. pelo seu pronunciamento, me somar a ele e dizer que a crise é deles, a crise é do capitalismo, a crise é dos ricos. Eles provocaram a crise e infelizmente quem vai pagar a conta serão os trabalhadores. Esses bilhões que foram usados para tapar o rombo do sistema financeiro infelizmente saíram dos impostos que nós pagamos, mas deveriam ser investidos na educação, na saúde, nos transportes, na segurança. E nós já estamos pagando a conta de um prejuízo, de um rombo que eles causaram com a sua ganância, com a vontade de ter mais lucro. É preciso discutir, sim, o modelo de sociedade que nós vivemos.
Parabéns pelo seu pronunciamento, deputado.
O SR. DEPUTADO PEDRO UCZAI - Eu queria que a língua inglesa fosse igual a língua portuguesa, espanhola, enfim, qualquer língua, para construir uma sociedade igual e justa e não uma língua sobrepondo a outra, um povo sobrepondo a outro, uma cultura, uma dominação, uma economia. Mas quem sabe essa crise realimente os movimentos sociais da América Latina e do mundo...
(Discurso interrompido por término do horário regimental.)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)