21ª Sessão Solene - 03/07/2006
O SR. DEPUTADO JOÃO HENRIQUE BLASI - Sr. presidente, deputado Julio Garcia;
Sr. governador licenciado, dr. Luiz Henrique da Silveira;
Sra. Ivete Appel da Silveira;
Sr. prefeito municipal Dário Elias Berger;
Sr. conselheiro José Carlos Pacheco, representando a nossa Corte Estadual de Contas;
Sr. jornalista Moacir Pereira, presidente da Associação Catarinense de Imprensa e autor do livro que hoje está sendo lançado;
Sr. ex-governador e ex-senador Casildo Maldaner;
Sra. Mariza Lobo Campos, neste ato representando o homenageado governador Pedro Ivo Campos.
(Passa a ler)
"As pessoas são irrepetíveis, algumas, no entanto, deixam marcas indeléveis por onde passam.
É o caso de Pedro Ivo Campos.
E não se trata aqui de elogio fúnebre. É que tive a suprema ventura de com ele conviver, por pouco tempo, é verdade, mas intensamente. Nesse caso, o fator qualitativo do relacionamento compensou em muito o fator quantitativo.
Essa convivência diária, ele como governador e eu como seu secretário de estado da Justiça, propiciou-me conhecer e admirar traços distintivos de sua marcante personalidade, levando-me a estimular o festejado jornalista Moacir Pereira a exercitar, uma vez mais, sua veia de 'repórter biográfico', para trazer à lume um pouco do muito que foi Pedro Ivo Campos.
Moacir garimpou subsídios valiosíssimos - junto à família e amigos de longa data - compondo um rico mosaico que retrata com fidedignidade e carinho uma história de vida diferente, vetorizada sobremaneira para o lado humano do personagem biografado.
Homem de uma franqueza às vezes cortante, Pedro Ivo nos legou a todos incontáveis lições. Afinal, era um formador de gente capaz de lições inesquecíveis mesmo quando não pretendia ensinar.
Tomei a liberdade de recolher do livro que está sendo lançado hoje pelo Moacir alguns trechos para bem elucidar a trajetória, a personalidade de Pedro Ivo Campos.
No primeiro deles, Pedro Ivo era prefeito de Joinville e procurou-o, muito preocupado, o tesoureiro da municipalidade, informando que teria que cortar o ponto e o salário da servidora Rose, porque a mesma não havia comparecido ao trabalho e tampouco dera justificativa escrita ou verbal. Imediatamente o prefeito a ele respondeu: 'A servidora está à disposição do governo federal e, portanto, determino que o seu salário seja pago aos seus familiares'. Era que ele tinha conhecimento de que ela fora presa pela famigerada Operação Barriga-Verde e entendia que ela estava à disposição do Exército Brasileiro e, portanto, do governo federal.
Certa feita - e esta se passou comigo - num despacho com o governador Pedro Ivo, narrando determinado assunto e estranhando a ele que com relação àquele mesmo assunto houvessem sido adotadas providências diferentes, o governador sentenciou algo que ficou para mim marcado imorredouramente. 'Há pessoas que ocupam cargos e a há pessoas que exercem cargos'.
Numa outra oportunidade, por dever de ofício, submeti ao governador Pedro Ivo processo que tinha como interessado um assessor meu e velho conhecido dele. Tratava-se de pedido de ingresso no estado, sem concurso público, mas fundamentado em lei por ter o postulante atuado na faixa de fronteira do país durante a 2ª Guerra Mundial. Quando expus a matéria, ele foi objetivo e perguntou-me: 'Você sabe quando terminou a 2ª Guerra?' Eu disse: 'Governador, se não estou equivocado, em 1945'. Ele completou novamente de forma interrogativa: 'São passados mais de 40 anos e só agora o pedido foi feito?' Disse-me, porém, que submeteria o pleito a um acurado exame de juridicidade. Passou-se um bom tempo, ele não tocou mais no assunto e nem eu, até que num determinado dia, recebo uma ligação sua no telefone vermelho, dizendo alegremente: 'Avise ao nosso amigo que o pedido dele foi deferido'.
Uma outra passagem importante. Num outro despacho, levei ao conhecimento do governador Pedro Ivo Campos a composição de lista tríplice para o provimento de determinado cargo que dependia da opção, da escolha, do governador. Repassei-lhe a nominata. Examinando cada qual dos indicados, arrematou: 'Se tiver que decidir partidariamente, a nomeação recairá sobre...' e mencionou o nome do postulante que fora vereador. 'Se tiver que decidir com o coração, a nomeação recairá sobre...' e mencionou o nome do postulante que era filho de um grande amigo de infância aqui em Florianópolis. 'Mas vou decidir por aquele que considero, no momento, o mais habilitado para exercer a função.' E, de fato, assim procedeu demonstrando seu espírito público."
Recolhi aqui do escritor Werner Zotz o seguinte trecho, que também reputo importantíssimo, interessantíssimo. Diz Werner, que foi secretário de Comunicação no governo Pedro Ivo Campos.
(Continua lendo)
"Uma noite, o governador me telefona. Vai direto ao assunto:
- Você está comprando um carro novo?
Com a resposta afirmativa, ele faz nova pergunta:
- O seu carro está estragado? Tem algum problema?
Digo que não. Ele continua:
- Então vou lhe pedir um favor: fique com esse seu carro até o final do governo."
E o Werner então insistiu. À época ele não era ainda secretário da Comunicação, veio a ser depois, mas prestava alguns serviços ao governo, argumentando com este fato.
O governador, então, complementou.
(Continua lendo)
"Você pode não ser funcionário do governo, mas presta serviços ao governo. Sei que o seu dinheiro é honesto, ganho com o seutrabalho. Mas sempre vai aparecer alguém para dizer que é dinheiro público. No mínimo vão dizer que você está ganhando dinheiro demais, ou gasta muito com propaganda. Finalizou com aquele ditado, por todos nós conhecido:
"- À mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta!"
A moral da história é que Werner ficou com aquele carro combalido até o final daquela gestão de governo.
Numa outra oportunidade o governador despachava com um assessor seu e vendo que esse assessor estava surpreso por algumas decisões que foram tomadas, ele se dirige e pergunta.
(Continua lendo)
"Então você pensou que a gente ia fazer uma revolução...
O assessor disse:
- Não foi isso que nós prometemos na campanha?
O governador completou:
- Não - explicou. - Nós prometemos mudanças. Há um contexto, onde estamos inseridos. Nós fazemos política. Isso aqui não é guerrilha, nem movimento revolucionário. Política é a arte do possível... Todas as noites vou dormir com dois sentimentos. Um, de satisfação, pelo que consegui resolver e outro, de frustração, pelo que ficou sem solução... E temos que aprender a dormir assim mesmo, porque amanhã há um novo dia...
De fato, senhoras e senhores, amanhã há um novo dia. Sigamos em frente animados pelo exemplo e pelas lições de Pedro Ivo Campos."
Muito obrigado!
(Palmas)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)