8ª Sessão Ordinária - 03/03/2005
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. Presidente e Srs. Deputados, quero, primeiramente, fazer referência a V.Exa. como Presidente da Assembléia Legislativa, porque é comum, nos últimos anos, as sessões de quinta-feira não serem devidamente prestigiadas por todos os Deputados, como são as de terça-feira e quarta-feira.
Eu sou assíduo participante das sessões de quinta-feira pela manhã. Mas quero aqui fazer referência e elogiar V.Exa. por hoje, na tradicional quinta-feira esvaziada, estar conosco, conduzindo a Presidência, porque na quinta-feira, em boa medida, Deputado Nilson Gonçalves, é quando se faz o debate sobre o saldo político da semana, as preocupações, os encaminhamentos para a semana seguinte. Evidentemente que a Ordem do Dia nunca é substantiva. Mas V.Exa. hoje prestigia a nossa sessão, e eu quero aqui fazer referência elogiando-o pela postura.
Também recorro à coluna do eminente jornalista Moacir Pereira, do dia de hoje, com o título Convergência, que diz o seguinte:
(Passa a ler)
"O Presidente Estadual do PT, Milton Mendes de Oliveira, e a Senadora Ideli Salvatti reúnem-se, hoje, às 15h, com o Governador Luiz Henrique, na Casa d’Agronômica. Os dirigentes petistas vão propor uma trégua, durante este ano, entre os dois Partidos, para tentar ampliar os recursos federais. A Senadora reprova a antecipação do debate sucessório estadual."
Bem, Sr. Presidente, eu quero fazer referência a essa nota, até porque quando a li fiquei preocupado e telefonei ao Presidente Estadual do PT de Santa Catarina, companheiro Milton Mendes, e perguntei se de fato a reunião que ele iria participar tinha esse caráter político de estabelecer trégua com relação ao Governo do Estado e ao Partido dos Trabalhadores. Inclusive, considero-a desnecessária, uma vez que a nossa postura, do ponto de vista do exercício da oposição, tem sido extremamente madura, responsável, fazendo as críticas no sentido do mérito das iniciativas com relação aos equívocos, aos erros, às suas concepções nos projetos de lei, que são trazidos à Assembléia Legislativa pelo Governador Luiz Henrique da Silveira.
Estamos fazendo aquilo que é da nossa tradição política, do patrimônio do Partido dos Trabalhadores, de 25 anos de luta em favor de um conteúdo programático, de uma postura ética, de uma atitude política. E não poderíamos deixar de continuar a nossa caminhada, porque essa caminhada foi a que fez com que o PT se tornasse o maior Partido de esquerda no continente latino-americano. É uma caminhada vitoriosa, vinculada às lutas populares, à dor, ao sofrimento dos explorados e dos oprimidos deste gigantesco Brasil.
O Partido dos Trabalhadores nasceu como uma ferramenta, como porta-voz da luta dos trabalhadores na perspectiva da emancipação, em nome de uma nova sociedade, de uma sociedade justa, fraterna, igualitária, que tenha conteúdo efetivamente distinto desse conteúdo em que vivemos, da sociedade em que vivemos.
Por isso, não há razão para fazer trégua. E muito menos a nota emitida pelo eminente jornalista Moacir Pereira, segundo o Presidente do Partido, reflete o sentido da reunião. É uma relação entre representantes do Partido do Governo Federal com o Governador do Estado, para tratar de assuntos de interesse dos Governos e não uma relação entre Partidos ou entre o PT e o Governo do Estado de Santa Catarina. O conteúdo é de interesse do Governo Federal e do interesse do Governo Estadual. Independentemente de quem venha a ser, de qual Partido, se é de Oposição ou de Situação, cabe aos nossos governantes estabelecer relações de diálogo, de iniciativas, estabelecer projetos em que a União e o Governo do Estado possam ser parceiros para buscar atender os anseios, os interesses da maioria do nosso povo.
Não cabe aqui usar o cargo de Presidente da República, de Governador do Estado, de Deputado ou de Secretário de Governo, como na semana passada já discutimos aqui, como ferramenta política para acabar, no final das contas, prejudicando o interesse da sociedade. Não é esse o modelo, o sentido de fazer a política que defendemos.
Por isso, considero extremamente explicado e justificado. E gostaria de fazer essa referência para que não crescesse a idéia de que o PT estaria fazendo trégua, quando, na verdade, o seu diretório estadual, de maneira soberana, deliberou que o Partido dos Trabalhadores deva ser um Partido de Oposição.
Também queria, nestes últimos três minutos, fazer referência ao fato de eu ter tido a oportunidade de, representando a Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, por autorização da Mesa Diretora, participar, no dia 1º de março, da posse do Presidente do Uruguai, Tabaré Vásquez. E digo a V.Exa. que foi um momento muito importante que vivemos, do ponto de vista do continente latino-americano.
O sentimento popular de esperança nas ruas era impressionante, Deputado João Henrique Blasi, até porque o Presidente Tabaré Vásquez ganhou aquela eleição no primeiro turno, com 50,8% dos votos. A alegria, o sorriso, as bandeiras vermelhas da frente ampla tomaram conta de Montevidéu.
Cheguei a falar para o Deputado Julio Garcia, Presidente da nossa Casa Legislativa, que deu a impressão, de tão representativa a mobilização popular e a forma como o povo se manifestava, que além de Tabaré Vásquez, que assumia Presidência da República no dia 1º de março, também estava tomando posse Che Guevara, porque estava estampado nas bandeiras, nas camisetas, nas faixas, pichado nos muros de Montevidéu. Ernesto Che Guevara é um símbolo cultivado com muito carinho pelo povo uruguaio. Deu-me a sensação que de fato há uma opção pela esquerda, uma opção com interesse nas transformações profundas da sociedade do Uruguai. Digo mais, além da expressão, do simbolismo que consegui perceber de uma figura emblemática como Che Guevara, também é de assustar, no bom sentido da palavra, a expressão política, a forma como o povo do Uruguai acolheu também Hugo Chaves. Nos muros da cidade, também Fidel e Hugo Chaves; o povo do Uruguai os recebia com muita gratidão.
Aí vejo o Brasil, o Uruguai, vejo Néstor Kirchner, na Argentina, e Hugo Chaves na Venezuela. Isso significa um novo momento para o continente latino-americano, significa uma perspectiva de mudança estrutural para a nossa sociedade.
Então, gostaria de fazer este registro no dia de hoje. Não poderia deixar de falar, de me silenciar sobre o significado da posse de Tabaré Vásquez para o continente latino-americano.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)