15ª Sessão Ordinária - 14/03/2007
O SR. DEPUTADO SÉRGIO GRANDO - Sr. presidente, sras. deputadas e srs. deputados, lembro-me de dezembro de 1968, conhecido como ano de chumbo, quando estávamos presos, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, o AI-5. Naquela época, lembrando-me de uma poesia escrevi na parede: "Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena, embora o pão seja caro e a liberdade pequena." É uma poesia em homenagem ao nosso grande poeta, que depois vim a conhecer pessoalmente, que é o Ferreira Goulart.
Por que estamos falando sobre isso, sr. presidente? Porque hoje é o Dia Nacional da Poesia. E todos nós sabemos o quanto é importante termos alguma referência, pois somos poetas e gostamos de pensar sobre a vida. Naquele momento, muitos jovens não tiveram saída e partiram para o radicalismo, para a luta armada e tombaram por esse caminho, construindo a democracia que temos hoje.
Realmente, como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena. Gostaria também de homenagear um outro poeta, esse não em vida, mas que muito representou na época do regime de exceção, o nosso poeta Mário Quintana, que, na sua sutileza e criatividade, fez uma pequena poesia em que diz: "Vocês, na sua prepotência, que aí estão fazendo o que querem, um dia passarão e eu passarinho." Quer dizer, desta forma fez uma homenagem à natureza e mostrou a realidade que se vivia, dentro do que era possível dizer; e eles não percebiam, até pela sua inteligência, o recado que estava sendo dado.
Também quero fazer homenagem a outro poeta que se foi e que marcou muito na nossa época. Ele vinha muito à Florianópolis, o paranaense Paulo Leminski. Ele, na sua sabedoria, na sua forma satírica de colocar, imaginar e complementar para o jovem, disse o seguinte: "Saber é pouco. Como é que a água do mar entra dentro do coco?" Então a sua forma de expressar, de dizer era a interrogação da nossa geração para aquilo que estava ocorrendo.
Também vamos nos lembrar de um catarinense chamado Lindolfo Bell, pela sua luta, pela sua política de atuação através da poesia, ou da poesia através da política. Quando todos diziam que nós devíamos ser do tamanho do nosso sonho, ele fez uma poesia e nos disse: "Nunca serei menor do que o meu próprio sonho". É um catarinense conhecido, histórico e quero mostrar o seu pensamento.
Mas o que nos leva hoje a nos pronunciar, sr. presidente, sem sombra de dúvida, é um vizinho nosso. Andávamos sempre pelas ruas de Florianópolis, discutíamos, trocávamos idéias e como opção de poeta fez a sua vida. Falo do companheiro Osmar Pisani, que faleceu recentemente. Esse grande catarinense talvez seja o que melhor tenha retratado Florianópolis, na sua discussão com a intelectualidade da época e, sem sombra de dúvida, convivendo juntamente com todos esses poetas de quem falei, do país e dos estados aqui do extremo sul.
Quem foi Osmar Pisani? Ele diz na sua própria entrevista:
(Passa a ler.)
"Li, li muito até os vinte e quatro anos, quando me apaixonei e tive que trabalhar por concurso no Tesouro do Estado de Santa Catarina, em janeiro de 1961. Em 1962 já lecionava no Instituto Estadual de Educação e em 1963 como professor catedrático. Meu trabalho no Tesouro do Estado, apesar de bem remunerado, era horrível e me sacrifiquei fazendo permuta com um amigo de outra secretaria, onde havia mais liberdade, teria mais tempo para ler e estudar, pois já freqüentava dois cursos: Direito e Letras neolatinas. Não há nenhuma relação desse trabalho com o que faço. Meu primeiro livro publicado foi o Delta e o Sonho, em 1964. Para o futuro, quero publicar mais um livro de poemas Esferas no Espelho, praticamente inédito, exceto treze poemas publicados numa Antologia Internacional do Mercosul, juntamente com outros poetas latino-americanos.
Várias obras foram publicadas, entre elas estão: O aspecto psico-religioso na obra de Cruz e Souza. Ensaio Revista da Academia Catarinense de Letras; Raízes do Vento; Circulo 17; Assim escrevem os catarinenses (que também foi uma antologia e que contém poesias do nosso companheiro e amigo Osmar Pisani); Críticos e Artistas; As paredes do mundo[...]" [sic]
O importante é que temos aqui grandes obras, muitas delas eu gostaria que todo o catarinense pudesse ler para saber mais este grande poeta.
Eu vou ler uma poesia de Osmar Pisani, intitulada As paredes do mundo, para que possamos entender as suas idéias. Olhem só o título como é importante:
(Passa a ler.)
"Asas brotam de meus dedos
Aqui, asas brotam de meus dedos
e se elevam como um sopro
na branca paisagem de teus sonhos
Vês as figuras transformadas em papel?
Outros seres passam em procissão
e a idéia é um lago somente,
súbita estrela se apóia em tua mão.
Tua sombra se ajusta à órbita da noite
e cobre o abismo dos homens sem memória."[sic]
É importante lembrarmos pela passagem histórica que tivemos neste Brasil, o quanto se perdeu da memória e da luta que foi expressa principalmente nas artes e na forma de atuar de cada um.nadia
Vou ler outra poesia sobre Florianópolis. E como falei, talvez tenha sido o melhor poeta que a tenha descrito. Vejam bem, ele diz isto no livro: As raízes do vento.
(Passa a ler.)
"E os homens azuis vieram de longe
trazendo nos ombros aurora e possessão
o chão concreto dia-a-dia ergueu-se
a sombra enrugou os muros
do alto franziu as ruas
a ilha entrou no mar".[sic]
Então é importante e bom que se leiam as poesias de forma fragmentada, para que nós possamos identificar seus pensamentos. É a maneira que eu faço sempre que leio um livro de poesia de vários outros autores, porque expresso o pensamento e os anseios.
Com isso, gostaria de homenagear Osmar Pisani, este grande cidadão catarinense, este grande poeta, no nível dos grandes poetas nacionais. E espero que, lá no outro mundo, continue inspirando e dando seu exemplo, como foi em vida, em função da arte.
Era isso que tínhamos para dizer, sr. presidente.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)