Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputada Ideli Salvatti

12ª Sessão Ordinária - 19/03/2002

A SRA. DEPUTADA IDELI SALVATTI - Muito obrigada, Presidente!

Srs. Parlamentares, quando fazemos 50 anos, Deputado Onofre Santo Agostini, temos a obrigação de pensar na vida. E eu tenho pensado muito na minha, nesses últimos dias. E ao pensar na vida, temos a obrigação de resgatar o que foi importante, o que fizemos de importante, quem foi importante para nós, quem nos marcou.

Temos aquelas marcas dos próximos, as marcas da família da gente, dos nossos pais, dos nossos parentes, dos nossos filhos; temos a marca dos nossos amores, dos nossos amigos, e eu tenho muitas marcas dos meus companheiros de utopia.

Existe, no entanto, uma pessoa que me marcou de uma forma muito forte, muito presente, e eu nunca tive a oportunidade de ver essa pessoa pessoalmente, Deputado Onofre Santo Agostini. Mas, indiscutivelmente, foi uma das pessoas, uma das artistas que ainda emociona este País, apesar de ela ter ido embora já há 20 anos. Há 20 anos Deus chamou Elis Regina para ir emocionar o céu.

E essa figura, essa artista Elis Regina me marcou, primeiro, porque era uma pessoa que se entregava completamente àquilo que fazia. Ela fazia tudo por inteiro, fazia tudo com muita paixão. Elis Regina era emoção personificada, ela incorporava a música. Se a música corporificou-se no Brasil, esse corpo foi o da Elis Regina. Ela é uma das artistas que tem poucas comparações no mundo. Eu só consigo comparar Elis Regina a uma Edit Piaff; só consigo compará-la há poucas pessoas e poucos artistas.

E essa incorporação da música que se dava na Elis fica na minha memória, e imagino que fica na memória visual de milhões de brasileiros. Tenho certeza de que naquele gesto de jogar o braço para trás e de cantar com o corpo, com os olhos, com a voz o Arrastão - “Olha o arrastão entrando no mar sem fim, vai meu irmão e traz Iemanjá para mim” - (quem tem mais ou menos a nossa idade sabe o que significava aquele brado da Elis, gritando, cantando, expressando), ela se entregava, Deputado Onofre Santo Agostini, de corpo e alma àqueles que a admiravam.

Elis ia do mais absoluto romantismo numa música que é uma versão, uma música americana, que muito pouca gente teve coragem de cantar, e cantava sedutoramente - “O teu corpo é luz, sedução, poema divino cheio de esplendor” - até uma ironia felina de quem tinha toda a visão crítica da sociedade brasileira. E não podemos esquecer, Deputado Afrânio Boppré, da crítica à classe rica deste País quando ela cantava “Down, down, down no high society, down, down, down, down, está cada vez mais down, no high society”.

E Elis retratava como nenhuma outra artista, pois nem a Billy Holiday, que é uma musa da música internacional, conseguia retratar a dor que Elis retratava nas suas músicas. Quem nunca sentiu a dor de uma separação, com certeza, não chorou nenhuma vez quando ouviu ou quando assistiu Elis cantando Atrás da Porta, de Tom Jobim:

“Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus...”

Não tem dor tão bem personificada do que esta música cantada por Elis.

Elis sabia como ninguém retratar o cotidiano, ela falava das coisas simples com uma musicalidade, com uma expressão que nos mergulhava naquele cotidiano: “Eu quero uma casa no campo, do tamanho ideal, pau a pique e sapé...”, Deputado Julio Garcia. Ou então cantando Águas de Março, também do Tom Jobim: “É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um porto sozinho...”

Este cotidiano que Elis cantava, de forma tão maravilhosa, expressava também a sua figura de mulher, toda a sua sensibilidade. E eu tenho certeza de que todas as mulheres que ouviram ou viram Elis Regina cantando, se identificaram: “Quando caminho pela rua lado a lado com você, me deixas louca...”

Deputado Heitor Sché, essa mulher tão maravilhosa que era Elis, que transmitia toda a sua feminilidade, conseguia reportar o cotidiano das pessoas, tinha uma capacidade de sublimar o prosaico. Aquilo que era tão simples, que poderia inclusive, em qualquer outra voz, Deputado Onofre Santo Agostini, ser ridículo, ela conseguia fazer com que fosse sublimado: “Sou caipira, pira, pora Nossa Senhora de Aparecida, ilumina a minha escura e funda o trem da minha vida...”

E aquela estória do bandaid, no dois para lá, dois para cá, de Aldir Blanque e João Bosco, nunca um bandaid foi elevado numa situação de poesia como fez Elis Regina nesta música: “No dedo um falso brilhante, brincos iguais ao colar e a ponta de um torturante bandaid no calcanhar...”

Precisava ter muita coragem para cantar as coisas que Elis Regina cantou durante tantos anos para todos os brasileiros. Faz 20 anos que ela foi embora e Elis Regina, no dia 17 de março, neste domingo agora que passou, faria 56 anos. Elis Regina faria aniversário na véspera do meu. Não só por isso, mas também porque Elis Regina era alguém que estava na minha proximidade, marcando-me de forma plena.

É por isso que hoje faço, com toda a minha emoção, esta homenagem para essa pessoa que foi durante boa parte da ditadura militar brasileira a voz do nosso Brasil, aquela que conseguia retratar, reproduzir na sua emoção cantante os sentimentos e as palavras que muitos de nós não tínhamos condição de falar.

Talvez a música que a Elis deixou de símbolo de todo este período e que até hoje emociona os brasileiros, o Bêbado e o Equilibrista, tem na sua parte final uma mensagem que cabe bem para podermos homenagear nesta tarde de terça-feira, dois dias depois do seu aniversário, essa artista maravilhosa:

(A Deputada Ideli Salvatti canta trecho da música.)

“Eu sei que uma dor assim pungente

Não há de ser inutilmente

A esperança

Dança

Na corda bamba de sombrinha

Em cada passo dessa linha

Pode se machucar

Asa a esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista tem que continuar.

E Elis continua o seu show no céu.

(Procede-se à execução da poesia pela cantora Elis Regina.)

“Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

Agora o braço é uma linha, um traço, um traço espelhado e brilhante.

Como todas as figuras são assim,

Desenhos de luz, agrupamentos de contos, de partículas.

Um quadro de impulso, um processamento de sinais.

E assim, dizem, recontam a vida.

Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinam os nossos insígnios luminosos.

E aí estou pelo salão, pelas casas, pelas cidades parecidas comigo.

Uma forma nebulosa feita de luz e sombra,

Como uma estrela.

Agora eu sou uma estrela.

Elis é a estrela deste Brasil.

Muito obrigada!

(SEM REVISÃO DA ORADORA)