Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

26ª Sessão Ordinária - 01/04/2014

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, sras. deputadas, e quem nos acompanha pela TVAL e pela Rádio Alesc Digital Alesc nesta tarde de terça-feira.

Quero começar falando de um sentimento muito pessoal, particular, porque na noite de ontem para hoje tive insônia, não dormi por ser militar. Na condição de militar continuo lendo e refletindo sobre razões políticas de militares aqui neste país e em outros países do mundo, como na vizinha Venezuela, por exemplo, pois alguns aqui no Brasil aplaudem os militares golpistas e são contra ou odeiam os militares que defendem o governo constitucional bolivariano, inclusive o próprio comandante Hugo Chávez, já falecido.

Tenho lido ao longo dos últimos 20 anos ou mais, quase tudo que consigo a respeito dos golpes, das lutas contras os golpes, das versões dos que participaram dele e das versões dos que foram derrotados. E continuo sendo militar, condição da qual não dá para se afastar depois da inclusão nas fileiras. Mas o que quero debater é que nós militares não precisamos e não devemos ser, necessariamente, defensores de uma ordem excludente, e não somos.

Também uma parte de nós, militares, foi derrotada em 1964 e amargou as mesmas dores dos outros setores que se opunham também ao golpe e à ditadura.

Aliás, os militares foram os primeiros afetados pelo golpe. O Ato Institucional n.1 do Golpe de 64 foi dirigido especificamente contra aqueles militares que defendiam a legalidade, a constitucionalidade e a manutenção do presidente constitucionalmente constituído. Milhares foram perseguidos, cassados, reformados compulsoriamente, tiveram a carreira encerrada. Foram cassados com "s" e com "c".

O primeiro opositor do golpe militar assassinado pelos golpistas foi um militar, num presídio a beira do Guaíba. Havia um buraco de tortura de dentro do presídio para o rio, onde seguravam a pessoa a ser torturada pelos pés e afogavam-na. Foi um afogamento. O primeiro dos antigolpistas que passou por essa experiência e morreu era militar. A justificativa dada para sua morte foi de que o sapato caiu do pé, que ocorreu um acidente de trabalho.

Quando se fala dos militares que militaram contra o golpe vem à cabeça de todos que participaram do movimento popular da esquerda, o cabo Anselmo, o facínora, que está vivo, o sujeito que se desenhou de militante de esquerda e ajudou a dedurar, no sentido mais perverso e de forma indecente, os seus companheiros de luta, inclusive a própria namorada grávida. E, inclusive, no Brasil de hoje há pessoas dizendo que quem é vermelho e de esquerda é contra a natureza humana, contra a vida.

E esse facínora, chamado cabo Anselmo, apoiado e defendido até hoje por castas importantes da política nacional, dedurou de forma vil a própria namorada grávida que foi torturada até morrer, desgraçadamente, porque essa é a figura mais lembrada.

Nós tivemos centenas, milhares de pessoas até hoje não anistiados, os militares que se opuseram ao golpe de 64, a maioria deles até hoje, não foram anistiados. Eu pensava e continuo pensando, que ainda hoje vivem por aí outros, possivelmente e inclusive em postos de mando, alguns dos quais escondem, ocultam cadáveres sob seus travesseiros. E não é possível que um sujeito que tenha participado e saiba onde estão os restos mortais de diversos brasileiros, centenas deles e inclusive um ex-deputado desta Casa Legislativa, possa dormir o resto da vida descansado com esses cadáveres, repito, rondando o seu travesseiro.

E se nós queremos falar em democracia temos que ter a coragem de admitir os erros, como militar que sou e serei, segundo-sargento até morrer, meu lugar é a 12ª fileira de qualquer batalha legítima em defesa da soberania brasileira e da soberania dos povos, estou à disposição para qualquer batalha em defesa do interesse desta sociedade brasileira, da sua classe trabalhadora, do seu povo, da sua soberania popular, como reza a nossa Constituição.

E como tal considero um erro que o Exército Brasileiro e as demais forças armadas não queiram que a sociedade inteira saiba aonde estão os restos mortais das pessoas desaparecidas. É um erro político, na minha avaliação, das Forças Armadas que até hoje não admitem a possibilidade de fazer essa correção, essa passagem a limpo da história nacional precisa ser o braço forte da soberania popular.

Quero repetir, as nossas Forças Armadas e qualquer força armada precisa ser e deve ser, constitucionalmente, o braço forte da soberania popular, da vontade majoritária de um povo e, portanto, não tem cabimento continuar omitindo cadáveres, porque é incontestável que existam - e há brasileiros que sabem onde estão alguns cadáveres -, mas não dão direito à sociedade saber, nem as mães, esposas, filhos daquelas pessoas.

Então, como militar gostaria de poder dormir nas noites de 31 de março para 1º de abril sabendo que as nossas Forças Armadas respeitam a sua sociedade, seu povo e não quer omitir nenhum fato que seja importante para os filhos deste país.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)