124ª Sessão Ordinária - 11/11/1999
O SR. DEPUTADO JAIME MANTELLI - Sr. Presidente e Srs. Deputados, inicialmente desejo cumprimentar nossos ilustres visitantes, que no início de suas vidas já participam de atividades tão importantes.
Manifesto aqui a minha esperança de que entre vocês estejam muitos dos que venham a nos suceder na Assembléia Legislativa para traduzir o verdadeiro sentimento da sociedade catarinense, por extensão da sociedade brasileira.
Estamos extremamente felizes com a visita de vocês. Desejamos uma boa estada.
Srs. Deputados, vamos continuar na questão do pronunciamento feito pelo Deputado Jaime Duarte, que também mereceu considerações do Deputado Nelson Goetten, que nos antecedeu nesta tribuna.
Nós, Deputado Nelson Goetten, vivemos exatamente o desafio de reiniciar ou de iniciar um ciclo novo de desenvolvimento não só da economia mas de desenvolvimento do próprio ser humano.
Encerra-se um ciclo que não consegue mais produzir resultados que venham a contemplar o ser humano. A questão do desemprego seria o emblema de toda essa conseqüência de fim de ciclo. E estamos agora nos debatendo com assuntos como esse do desemprego. E a pergunta é: o que fazer?
Precisamos encontrar uma fórmula para que amanhã essas crianças que aqui estão tenham uma vida digna, tenham oportunidade de emprego, de trabalho, de geração de renda para viver com dignidade. Este é o desafio. E a pergunta é: o que fazer?
No momento, o modelo de gerenciamento do País está colocado para pegar a questão da educação de uma forma absolutamente equivocada, por quê? Porque não fala no futuro. E precisamos de futurólogos, de especialistas que consigam interpretar pelos princípios científicos o que temos de ensinar para as nossas crianças de hoje, para que o mercado de trabalho disponibilize desse ensinamento amanhã.
O grande desafio está colocado nisso, e nós não vemos nenhuma luz no começo, no meio e nem no fim do túnel. Hoje estamos simplesmente alfabetizando as nossas crianças. Até os cursos universitários, na sua grande maioria, nada mais fazem do que continuar a alfabetização, na profissionalização propriamente dita deixam muito a desejar.
Outro capítulo que temos que nos preocupar é exatamente a conjugação, a adequação das iniciativas para convivermos e usufruirmos de todos os benefícios que a tecnologia nos proporciona, mas sem que essa disponibilidade venha a bater de frente com a necessidade básica do trabalho, do emprego, de uma forma de geração de renda, para que os nossos trabalhadores possam viver com dignidade.
O modelo que está vigorando hoje é assim: BRDE e outros bancos intermediam o repasse de recursos públicos, financiam plantas industriais principalmente, com tecnologias absolutamente modernas, com princípios totalmente automatizados e mecanizados, fazendo com que menos mão-de-obra se utilize. Empresas centenárias se obrigam a deixar o modelo tradicional para também buscar financiamento através de linha de crédito oferecida por recursos públicos, pelo Poder Público, e com esse investimento constróem novas plantas industriais, modernas, extremamente avançadas, só que se antes era preciso 200 trabalhadores, na nova planta vai precisar de 40 ou 50. A diferença vai acabar no olho da rua. Será que é isso que o Poder público tem que financiar, será que é esse sistema? Não é, nem é a intenção, mas está financiando o desemprego!
Não podemos, de forma nenhuma, colocarmo-nos contra a disponibilização e a utilização dos processos de modernidade que a tecnologia oferece. Temos que trabalhar na direção de agregar às nossas plantas industriais todas as atividades produtivas, o maior índice de automação e de informatização. Mas o que fazer com os desempregados? Essa é a pergunta. Na medida em que não se pode estancar a busca pela tecnologia, não podemos fomentar a tecnologia sem nos preocupar com os outros que estão desempregados.
Então, a pergunta é essa: será que não deveriam os governantes adotar no mesmo princípio que vai financiar a utilização da tecnologia pelas empresas, que é uma necessidade, sem dúvida?
Jamais nos colocaríamos contrários a esse tipo de procedimento de investir em tecnologia, mas não seria uma obrigação governamental desenvolver processos que venham a possibilitar para esses trabalhadores que vão ficar desempregados em função da utilização do processo tecnológico uma fórmula para que tenham a sua sobrevivência garantida com dignidade enquanto a nova oportunidade de emprego não vem? E não estamos falando do desempregado que foi demitido por ser insubordinado, por ser um mal profissional, que é a ínfima minoria que está neste capítulo, estamos falando de profissionais brilhantes com décadas de serviços prestados, profissionais que até agora corresponderam a todos os desafios que a empresa colocou, só que foram vencidos por uma máquina, pela tecnologia, e acabaram no olho da rua.
Estamos falando de cidadãos de princípios, de cidadãos dedicados. Será que não resta responsabilidade para ninguém, para socorrer esse trabalhador vítima do desemprego causado por investimentos na tecnologia?
Precisamos enfrentar esse desafio, temos que resolver isso, porque tudo isso tem um custo. Vivemos nesse fim de ciclo também o fim da capacidade geradora de recursos. O Poder Público tem que enfrentar todos os desafios que estão colocados.
O debate é profundo, é extenso, parece que não tem fim, mas precisamos ter a coragem de enfrentá-lo. E o grande desafio neste momento, na minha humilde, simplória avaliação, é como equacionar investimentos com recursos públicos no desenvolvimento tecnológico, na utilização das modernas tecnologias pela indústria, pelo comércio, por todos os setores de atividades sem deixar no abandono, como está ocorrendo agora, os trabalhadores, que ficaram sem trabalho porque foram substituídos em grande escala por máquinas, tecnologias, etc.
É essa a resposta que precisamos perseguir. É dentro dessa esteira que faço coro ao pronunciamento dos Deputados Jaime Duarte e Nelson Goetten. Precisamos enfrentar esse grande desafio, e não é uma questão ideológica, não é um desafio de esquerda, de direita ou de centro, é porque precisamos vencer as barreiras ideológicas para encontrar a solução, e a solução está, sem dúvida nenhuma, na grande luz que precisamos perseguir, que é a luz da idéia de se começar um novo ciclo de desenvolvimento onde o ser humano não seja sempre o resto dos investimentos que venham a ser feitos. Valoriza-se a máquina, despreza-se o ser humano. E é muito complicado, na medida em que temos que investir em tecnologia, mas que no momento o ser humano é vítima e tem que deixar de ser.
Essa é a equação que está colocada, esse é o "x" da equação, e nós precisamos buscar o seu verdadeiro valor, pois a grande maioria dos trabalhadores hoje está sem nenhuma possibilidade de competir no mercado.
No início do nosso pronunciamento estavam aqui os alunos de uma escola de Blumenau e agora contamos também com a presença de alunos e professores de uma escola de Benedito Novo, que buscam neste Parlamento um pouco mais de sabedoria, um pouco de aprendizado sobre as nossas atividades, e é em homenagem a eles que precisamos nos dedicar de maneira efetiva, de maneira eficaz, de maneira denotada, muito suprapartidariamente, absolutamente acima das questões ideológicas. Precisamos enfrentar a tragédia do desemprego, que hoje assola grande parte da nossa população.
Não somos retrógrados, não somos contra a tecnologia, muito pelo contrário, somos defensores da tecnologia, mas também precisamos levar em conta que na contramão da tecnologia, que hoje produz desemprego, submissão, anti-patriotismo até por parte dos governantes, precisamos criar alternativas de renda, de trabalho. Não sei de que forma, mas precisamos encontrar uma solução para que o trabalhador, vítima da tecnologia, seja contemplado de alguma maneira, para que viva com dignidade. Esse é o nosso maior desafio no momento.
Mais uma vez cumprimento os Deputados Nelson Goetten e Jaime Duarte pelas manifestações feitas antes da nossa.
Ficamos orgulhosos de participar deste Poder Legislativo com Deputados como V.Exas., a exemplo de outros que tanto se preocupam com essa questão que hoje representa a tragédia da humanidade.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)