48ª Sessão Ordinária - 19/06/2013
O SR. DEPUTADO NILSON GONÇALVES - Sr. presidente e srs. deputados, vou utilizar esse tempo para falar sobre uma matéria que achei muito interessante, vista por olhos de quem não é brasileiro, que vive no Brasil e que está acompanhando esse movimento, essas manifestações no país inteiro. É o correspondente internacional Juan Arias, natural de Almeria, na Espanha, responsável por enviar notícias do Brasil para jornais daquele país, especialmente para o El País.
Ele escreveu um artigo que deixa bem claro, mais ou menos, como é o olhar dos correspondentes de fora do país - e que estão aqui acompanhando o dia a dia do povo brasileiro e mandando para fora as informações desta terra, da nossa gente - em relação ao que está acontecendo.
Eu vou ler aqui essa matéria porque achei bastante interessante, e até para objeto de reflexão.
(Passa a ler.)
"Por que Brasil, e agora?
Está criando confusão, dentro e fora do país, a crise criada de repente no Brasil pelo surgimento de protestos de rua, em primeiro lugar, nas cidades ricas de São Paulo e Rio, e agora se espalhando por todo o país e até mesmo pelos brasileiros no exterior.
No momento há mais perguntas para entender o que está acontecendo do que respostas para elas. Existe apenas certo consenso de que o Brasil, até então invejado internacionalmente, vive uma espécie de esquizofrenia ou paradoxo que ainda devem ser analisados e explicados.
Vamos começar com algumas perguntas:
Por que agora surge como um movimento de protesto como os que estão de volta em outros países, enquanto durante dez anos o Brasil vivia anestesiado pelo seu sucesso e aplaudido mundialmente? O Brasil é pior hoje do que dez anos atrás? Não, é melhor. Pelo menos é mais rico, tem menos pessoas pobres e crescem os milionários. É mais democrático e menos desigual.
Como é, então, que a presidente Dilma Rousseff, com uma aprovação popular de 75%, um recorde que superou o do popular Lula da Silva, pode ser vaiada várias vezes na abertura da Copa das Confederações, em Brasília, por quase 80 mil torcedores de classe média que podiam se dar ao luxo pagar até US$ 400 por um ingresso?
Por que vão para as ruas para protestar contra o aumento do preço dos de transportes públicos jovens que normalmente não utilizam esses meios, porque eles já têm carros, algo impensável ??há dez anos?"
Vejam bem, essa é a interpretação de uma pessoa de fora que está vivendo aqui no país.
(Continua lendo)
"Por que protestam estudantes de famílias que até pouco não sonhariam em ver seus filhos pisando em uma universidade?
Por que aplaude aos manifestantes a classe C, recém-chegada da pobreza e pela primeira vez na sua vida capaz de comprar uma geladeira, uma máquina de lavar roupa, televisão e até mesmo uma moto ou um carro usado?
Por que o Brasil, muito orgulhoso de seu futebol, parece ser agora contra a Copa do Mundo chegando a manchar a abertura da Copa das Confederações com uma manifesto que produziu ferimentos, prisões e medo nos fãs que foram ao estádio?
Por que esses protestos violentos em um país invejado até mesmo pela Europa e pelos Estados Unidos por seu desemprego quase zero?
Por que protesto nas favelas, onde as pessoas dobraram sua renda e recuperaram a paz que a droga lhes roubara?"
Vejam bem estou lendo aqui uma matéria de um correspondente internacional que manda para fora aquilo que ele está entendendo.
(Continua lendo.)
"Por que de repente se levantaram em armas os índios que já têm 13% do país e têm o Supremo Tribunal Federal sempre ao lado de suas reivindicações?
Os brasileiros são ingratos a quem lhes tem feito melhor?
As respostas para todas essas perguntas que produzem em muitos, começando com os políticos, uma espécie de perplexidade e espanto, poderia ser resumida em algumas questões.
Primeiro, você poderia dizer que, paradoxalmente, a culpa é de quem deu ao pobre um mínimo de dignidade: a renda não miserável, a possibilidade de ter uma conta bancária e acesso a crédito para comprar o que sempre foi um sonho para eles (eletrodomésticos, uma moto ou um carro). Talvez o paradoxo seja devido a isso: por ter colocado os filhos dos pobres na escola, onde não puderam ir seus pais e avós, e permitir aos jovens, todos brancos, negros, indígenas, pobres ou não, ir para a faculdade, fornecer livre acesso de saúde a todos e ter conseguido tudo o que transformou o Brasil em 20 anos em um país quase de primeiro mundo.
Os pobres chegados à nova classe média tornaram-se conscientes de ter tomado um salto qualitativo em matéria de consumo, e agora querem mais. Eles querem, por exemplo, serviços públicos de primeiro mundo, o que não tem e está longe de ter. Eles querem uma escola que além de acolher, ensine com qualidade, o que não existe. Querem uma universidade não politizada, ideológica ou burocrática. Eles a querem moderna, viva, para prepará-los para o trabalho futuro. Eles querem hospitais com dignidade, sem meses de espera, sem filas desumanas, onde eles sejam tratados como pessoas. Eles não querem que 25 bebês morram em 15 dias em um hospital de Belém, no estado do Pará. E eles querem sobretudo o que lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, em que a polícia não continue agindo como na ditadura; querem partidos que não sejam, nas palavras do ex-presidente Lula, um 'negócio' para ficar rico; querem uma democracia onde exista uma oposição capaz de vigiar o poder. Querem políticos menos corruptos; querem menos desperdício em obras que consideram inúteis, quando ainda existem oito milhões de famílias sem moradia; querem uma justiça com menos impunidade, querem menos diferenças sociais abismais. Eles querem ver na cadeia os políticos corruptos.
Querem o impossível? Não. Ao contrário do que os movimentos de 68, quando queriam mudar o mundo, os brasileiros insatisfeitos com o já alcançado querem serviços públicos como no primeiro mundo. Eles querem um Brasil melhor. Nada mais. Em última análise, querem o que lhes foi incentivado a desejar: ser mais feliz ou menos infeliz do que eram no passado.
Já ouvi algumas pessoas dizerem: 'Mas o que mais essas pessoas querem?' A pergunta me faz lembrar de algumas famílias que dizem que, mesmo dando tudo para seus filhos, eles se revoltam do mesmo jeito.
Às vezes os pais esquecem que faltou nesse tudo algo que para os jovens é essencial: a atenção, a preocupação com o que eles querem e não o que às vezes é oferecido. Eles precisam não somente de ajuda e proteção, de serem pegos pelo braço: eles querem aprender a ser protagonistas.
E aos brasileiros mais jovens, que cresceram e se tornaram consciente não só do que eles já têm, mas do que ainda podem alcançar, está faltando apenas deixá-los serem os protagonistas de sua própria história, especialmente quando eles provam ser extremamente criativos."
O SR. PRESIDENTE (Deputado Padre Pedro Baldissera)(Faz soar a campainha.) - V.Exa. tem 30 segundos para concluir o seu pronunciamento.
O SR. DEPUTADO NILSON GONÇALVES - Essa é uma matéria de um correspondente internacional que escreve para o jornal El País, na Espanha. E só não concordei com ele em alguns itens, por exemplo, "as favelas onde as pessoas dobraram sua renda recuperaram a paz que a droga lhes roubara", porque lá continua cheio de droga, e a paz está longe de acontecer.
Ele também diz que vão para as ruas para protestar contra o aumento do preço dos transportes públicos jovens que normalmente não utilizam esses meios, porque eles já têm carros, algo impensável há dez anos.
Então, ele diz que os jovens que estão protestando, todos eles, têm carros, têm meio de transporte, não precisam de ônibus e estão protestando por protestar. Não concordo com isso, porque na verdade a maioria precisa usar o transporte público. E é por isso que estão protestando.
Eu só lamento que v.exa. não tenha me concedido mais 30 segundos.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Padre Pedro Baldissera) - É que v.exa. não me solicitou. Mas para concluir, v.exa. tem mais 30 segundos.
O SR. DEPUTADO NILSON GONÇALVES - Agora falo também para quem está assistindo à TVAL.
Esses jovens que protestam nas ruas, conforme o repórter disse aqui, já não precisam mais de condução, porque agora têm seus veículos.
Senhores, acho que ele está fora da realidade, porque 90% desses jovens precisam, sim, do transporte coletivo, e de qualidade, para poder ir e vir em suas cidades. Essa que é a grande verdade.
Muito obrigado, sr. presidente!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)