Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Professor Grando

29ª Sessão Ordinária - 23/04/2008

O SR. DEPUTADO PROFESSOR GRANDO - Sr. presidente e companheiros deputados, gostaria de fazer algumas observações que eu considero da maior importância, apesar de serem simples.

Eu ouvi o relato do deputado Nilson Gonçalves sobre os portuários da região de São Francisco do Sul e, através do diálogo - e dialogou-se o máximo possível -, não ocorreu a greve. Eu me lembro da nossa militância como professor e do nosso trabalho como líder junto ao funcionalismo público, quando sempre dizíamos: começar uma greve é fácil, terminá-la é que é difícil.

Então, deve-se esgotar o máximo de diálogo possível entre as forças. Mesmo assim, se você for declarar greve, tem que analisar as correlações de forças para ter sucesso ou não. Por quê? Porque não é permitido à liderança sindical transformar toda uma categoria, todos os reivindicantes, numa massa de manobra. As pessoas não são massa de manobra; elas querem ter conquistas.

Daí a importância do amadurecimento do movimento, pois não basta ter enfrentamento. Por que não basta ter enfrentamento? Houve uma época em que aí, sim, fazia-se o enfrentamento neste país. Ou seja, quando não se tinha liberdade neste país. E vimos vários tipos de enfrentamentos. Uma parte se dividiu e foi para a luta armada, foi para o foquismo. Tivemos 32 organizações clandestinas procurando derrubar o regime que, de forma ilegal, clandestina, instalou-se no poder, que eram os militares que cecearam as liberdades, nomeando governadores, prefeitos de capitais, de municípios de fronteira, tirando os direitos sindicais, não permitindo a organização nem o pluripartidarismo. Dizia que tinha que haver apenas dois partidos.

Aquele foi um momento em que as liberdades foram cerceadas; foi um momento em que todos tinham que ser revolucionários. Cada um - pode até ter sido de forma equivocada ou não -, dando o máximo de si, foi para a luta armada e, como conseqüência, nobres companheiros importantes desapareceram. E isso serviu para recrudecer a questão da ditadura. Daí veio o AI-5 e, como conseqüência, todo o resto. Vejam o que nós passamos!

E outra parte entendeu, por não haver correlação de forças, que não se poderia ir para a luta armada. O que se fez? Não se poderia deixar de lutar. Começou-se a apostar na questão da democracia e a fortalecer o partido, que até então não era um partido de Oposição ao regime militar, mas era um partido que representava, que era o antigo MDB (Lembrem-se sempre que só havia dois partidos.), que se foi fortificando com um programa, ou seja, a questão de eleições diretas, a questão das liberdades democráticas, a questão da anistia. E havia uma bandeira fundamental, que nós não podemos esquecer: a Constituinte.

Então, começou-se a apostar na questão democrática. Será que era menos revolucionária essa aposta na democracia do que aqueles que pegaram em armas contra o regime? Não! Todas elas eram importantes! Mas essa é a que acabou mostrando, nas correlações de força, que era o caminho correto, porque avançou e tivemos conquistas. Nós tínhamos, inclusive, segmentos do esquerdismo, como nós chamávamos, que diziam que o povo não queria a Constituinte, que o povo nem sabia o que era Constituinte. E nós até concordávamos. Eles diziam que o povo queria arroz e feijão e nós dizíamos: "Não! O povo tem que saber como se divide esse arroz e feijão". Houve partido, que hoje está no poder, que sequer assinou a Constituinte. Fez a sua autocrítica e hoje sabe o quanto ela é importante.

Mas por que estou falando isso? Porque há pessoas que, quando era para serem revolucionárias, não o foram na sua história. E hoje, quando a realidade de conquista de toda a sociedade é democrática, querem ser revolucionárias. Nada mais justo do que hoje revolucionário seja quem é realista. Só muda, só transforma quem é realista. É época de reformas, de conquistas, sim, e de ter competência e capacidade para fazê-lo. Não é a época de se negar tudo. E é nesse sentido que eu chamo à reflexão porque para nós a democracia custou muito caro.

Então, é neste sentido que ser revolucionário não é só ser contra um regime; é construir uma nova sociedade e discutir. Por isso que hoje, na minha concepção, não dá para entender que aqueles que eram da Arena; aqueles que não queriam as liberdades democráticas; aqueles que não queriam as Diretas Já para presidente da República; não queriam a Constituinte; não queriam a liberdade sindical; não queriam as centrais sindicais organizadas; não queriam os trabalhadores organizados, agora estejam juntos num posicionamento equivocado, na minha maneira de ver, com aqueles que estavam caminhando contrário à onda de liberdade e de democratização. Mas a história, como força motriz, vai mostrar e nós vamos discutir.

Por que estamos falando isso? Porque o companheiro Edison Andrino disse: "Olha, em 2008 já são 40 anos de 1968, que foi um ano, para nós, muito caro". O companheiro Edison Andrino foi preso no congresso de Ibiúna como universitário, e nós, no dia 13 de dezembro, fomos enquadrado no AI-5 e só cinco anos depois fomos absolvido. Mas nós estávamos lá lutando pelas liberdades, construindo uma nova sociedade e mostrando que estávamos certos na correlação de forças e na democratização do país.

Quem não se lembra de personalidades que tiveram os seus mandatos cassados? E não há nada mais violento do que cassarem o mandato de uma pessoa que é eleita. E aí tivemos prefeitos, deputados estaduais, federais e senadores cassados. Lembro-me de Teutônio Vilela, o Menestrel das Alagoas, que estava do outro lado, do lado da Arena, e veio para cá para brigar pela redemocratização deste país; lembro-me de que São Paulo, a caminho de Damasco, quando caiu um raio, converteu-se e viu onde estava o lado certo.

Então, hoje, não podemos perder essas conquistas.

Quero dizer mais, srs. deputados: que a política, a verdade e a coerência são fundamentais em todos. Mas quero chamar a atenção para um detalhe: Agostinho Neto, que foi presidente de Angola e liderou a libertação daquele país, dizia que não basta ter a verdade, a coerência, a prática e lutar pelo que tem de melhor. Temos que ver as nossas intenções. E é interessante isso porque muitos, hoje, estão na luta ao lado de quem tem a verdade e está reivindicando. Mas qual é a intenção dessa pessoa?

É interessante ver que no esporte, no futebol, nós temos isso. Quando uma pessoa entra no time adversário com o intuito de machucar, mas não machuca, nem toca no adversário, o juiz apita a falta porque ele teve uma má intenção.

Então, em política é muito importante analisarmos a questão da intenção.

Aqui quero alertar para um outro fato que ocorreu há poucos instantes. Posso não concordar com nada do que dizem, mas defenderei até a morte o direto de dizê-lo. Isso é democracia lá dos valores burgueses da Revolução Francesa.

Hoje, o deputado Jorginho Mello entrou com um projeto que nós não assinamos; outros companheiros assinaram mesmo discordando, mas dando o direito de ele discutir. Essa é a essência da democracia e isso é fundamental.

Então, não pode, por corporativismo ou por interesse próprio, um parlamentar, que não deve trabalhar somente por corporativismo, mas com toda a sociedade...

Nós cansamos de dizer que, quando o trabalhador tem as suas câmaras de compensação junto com o patrão, nunca se vai igualar o trabalhador com o patrão porque o preço das peças daquele carro vai ser repassado para toda a sociedade, quando vender o carro. E sabemos que tem que haver luta de classes com contradições de classes. O patrão, bom ou mau, será sempre um patrão! Eles nunca vão ser compatíveis!

Cito um caso, por exemplo: temos empresa de ônibus e motoristas em greve. Daí eles repassam o aumento do salário do motorista e do cobrador à sociedade, aumentando o preço da passagem. Esses interesses não vão ser compatíveis. Momentaneamente, isso é corporativismo. Até pode haver, mas prejudica toda a sociedade civil.

E a nossa luta, como parlamentar, é alertar para isso, é fazer a verdadeira política de transformação. O papel do Poder Legislativo é muito importante. Cada um de nós tem que saber os reflexos políticos. Eu sei que, às vezes, como se diz na linguagem popular, há o crente que se considera maior que o templo. Então, faz a política que entende ser a oportunista, a do momento. Mas o que fica é a história e a coerência. Então, é nesse sentido que temos de avançar!

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)