83ª Sessão Ordinária - 13/11/2002
A SRA. DEPUTADA IDELI SALVATTI - Sr. Presidente e Srs. Deputados, o fato de estar nestas duas últimas semanas tendo a oportunidade de passar alguns dias em Brasília, convivendo com os que estão preparando a equipe do próximo Governo, e também convivendo de forma mais próxima com a Bancada do Partido dos Trabalhadores e dos Partidos aliados, tanto na Câmara quanto no Senado, tem me dado a oportunidade de refletir e de absorver, de forma mais concreta, o que nos aguarda para o ano que vem.
Inúmeros indicadores, iniciativas e acontecimentos destes últimos dias trazem-nos uma grande preocupação, porque o Governo Fernando Henrique, que está terminando o seu mandato e que este ano está trabalhando com um Orçamento que conseguiu manter o superávit primário, que conseguiu ter uma balança comercial superavitária em valores significativos, trabalhou com receitas extraordinárias, que não serão repetidas no ano que vem, num montante superior a R$15 bilhões. E essas receitas vieram de expedientes tributários extraordinários, tipo Refis, nos quais os devedores da União reconheceram o débito, tiveram amortização de juros e de multas, parcelaram o seu débito e esses recursos entraram no Caixa da União.
O Orçamento que está em vigor este ano está com um índice inflacionário bastante reduzido. Ele estava com uma taxa de juros de 18%, só que para o ano que vem todo esse cenário estará absolutamente modificado pelas ações, pelos acontecimentos do último período.
No segundo semestre tivemos a maior oscilação do dólar de toda a história do Plano Real. O dólar conseguiu ter uma relação com o real, em prejuízo ao real, superior ao que ele tem em relação ao peso argentino, o que é um absurdo econômico, Deputado Gelson Sorgato, porque a economia brasileira não tem indicadores. Nenhum dos indicadores da economia brasileira é pior do que o caos que está na Argentina.
Portanto, em hipótese alguma o real poderia ter uma situação pior do que a do peso argentino.
Essa especulação feita com o dólar e o aumento da taxa de juros de 18,5% para 21% são os dois elementos econômicos principais e fundamentais para o que estamos assistindo nos últimos dias, Deputado Jaime Mantelli: o aumento assombroso e desmedido dos combustíveis, de forma muito especial no óleo diesel e no gás de cozinha; o óleo diesel que mexe com o custo do frete e das passagens de ônibus e que afeta, junto com o gás de cozinha, de forma muito mais ostensiva e agressiva a população de baixa renda.
E agora vemos algumas manchetes nos nossos jornais. O Diário Catarinense estampa que o preço dos remédios sobe quase 10% a partir de hoje e a Folha de S.Paulo de hoje traz que o preço da comida tem a maior alta desde 1994.
Portanto, há indícios já claros, por conta da política adotada de elevação de juros e de especulação com o dólar, de início do processo inflacionário novamente no nosso País. E isso tudo está acontecendo nesse apagar das luzes do Governo Fernando Henrique Cardoso talvez até numa expectativa, de repente, de frustar a população, que tanta expectativa e esperança está depositando no Governo que vai assumir a partir de 1º de janeiro.
Portanto, a herança econômica que estão nos deixando está sendo profundamente agravada pelas iniciativas do Governo Federal nestes últimos dias e semanas e neste último período.
Mas, ao mesmo tempo, essa herança econômica, com o aumento da taxa de juros, com a especulação com o dólar, com o aumento dos combustíveis, dos remédios e da comida, continua colocada de forma clara a serviço de quem esta política está.
A Folha de S.Paulo de hoje também diz o seguinte:
(Passa a ler)
"Lucro de banco dá goleada no de empresa
A rentabilidade média dos bancos bate em 30% nos primeiros nove meses do ano e a das empresas chega apenas a 1,5%."
Então, que País pode sobreviver economicamente se aquele que gera a riqueza, que gera o emprego, que é o empreendimento, que são as grandes, médias e pequenas empresas, consegue ter, no máximo, 1,5% de lucro?! Mas o banco, o capital especulativo, chega a ter uma rentabilidade média de 30% no mesmo período. Este País é insustentável com uma política econômica dessa!
O Lula reafirmou, ao longo de toda a campanha, que enquanto este País remunerar de forma superior, em inúmeras vezes, o capital especulativo do que o capital produtivo, não terá solução.
Ninguém pode ter uma expectativa de criação de emprego e de aquecimento da economia para montar um empreendimento, se ao final desse investimento tiver apenas 1,5% de lucro, enquanto que aquele que deixa o seu capital aplicado em papéis, em rendimentos especulativos, acaba tendo um lucro de 30%.
É esse o cenário econômico que está sendo deixado para o próximo Presidente da República. E nós, que estamos acompanhando isso par a par, passo a passo, não podemos deixar de registrar a nossa indignação com o que estão preparando para Luiz Inácio Lula da Silva.
Muito obrigada!
(SEM REVISÃO DA ORADORA)