62ª Sessão Ordinária - 16/06/1999
O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Sr. Presidente e Srs. Deputados, ocupo a tribuna nesta tarde para, no horário do meu Partido, fazer um registro especial a três catarinenses que fizeram uma história de trabalho, de luta por este Estado e que, além da lembrança, muita saudade nos deixaram.
Hoje, dia 16, é mais uma das datas que queremos registrar nesta Casa.
(Passa a ler)
"Assumi à tribuna para registrar a passagem de uma data que, além de não poder desaparecer da memória dos catarinenses, marcou, de forma brutal e impiedosa, o nosso Estado.
Com efeito, o dia 16 de junho do já distante ano de 1958 foi testemunha da dor dos catarinenses, quando veio a trágica notícia de que um avião caiu nas proximidades de Curitiba matando vários catarinenses, dentre eles o Governador Jorge Lacerda, o Senador Nereu de Oliveira Ramos e o Deputado Federal Leoberto Leal. Com eles foi sepultado um fervilhante momento da política barriga-verde, que teve novos rumos, novas conseqüências.
Desejo assinalar, ainda, de maneira perfunctória, traços biográficos destes três grandes exemplares homens públicos.
O Governador Jorge Lacerda era médico e advogado, embora tenha preferido fazer política a exercer uma destas nobres profissões. Somava também a condição de jornalista e de literato. Era detentor de um estilo inconfundível que marcou a crônica literária brasileira, notadamente aquela da então Capital da República, a cidade do Rio de Janeiro.
Jorge Lacerda pertencia ao PRP - Partido da Representação Popular -, constituído em l945 e que sucedeu a Aliança Integralista Brasileira - AIB -, extinta por Getúlio Vargas, em 1938. Pelo PRP, elegeu-se várias vezes Deputado Federal e, com o apoio decisivo da UDN, foi eleito Governador do Estado em 03 de outubro de l955, derrotando Francisco Gallotti, da Aliança PSD-PTB, pela menor diferença de votos até hoje registrada na história de Santa Catarina.
Quando morreu, Jorge Lacerda realizava um Governo moderno. Há que se destacar o lançamento da Usina Siderúrgica da Sotelca, no, hoje, Município de Capivari de Baixo; a construção do Instituto Estadual de Educação, na Capital, e muitas outras obras e/ou serviços, a maioria direcionados à cultura e à educação do nosso Estado.
Nereu de Oliveira Ramos foi o grande chefe político catarinense, a partir de 1935, quando a Assembléia Legislativa o elegeu Governador do Estado, até a sua morte. Filho de outro Governador e chefe do clã, Vidal Ramos, irmão do Governador Celso Ramos e tio do também Governador Aderbal Ramos da Silva, Nereu, enquanto Governador (1935 a 10 de novembro de 1937) e interventor (de 10 de novembro de 1937 a 1945), colocou Santa Catarina como o Estado de melhor estrutura do ensino primário e fundamental, tendo dado, igualmente, especial impulso ao Plano de Saúde (construiu o Hospital Nereu Ramos e as Colônias Santa Teresa e Santana) e à implementação de várias rodovias em Santa Catarina.
Presidiu a grande Comissão que elaborou a Constituição Federal, promulgada em 18 de setembro de 1946. Presidiu a Câmara dos Deputados por sete vezes consecutivas. Presidiu, também, o Senado da República e foi Vice-Presidente do País.
Em 11 de novembro de 1955 o então Ministro da Guerra, General Henrique Teixeira Lott, abortou um Golpe de Estado e com a declaração da vacância do cargo de Presidente, eis que o Presidente João Café Filho, que sucedeu Getúlio Vargas (que se suicidou em 24 de agosto de 1954) e o Presidente da Câmara, Deputado Carlos Luz, foram declarados impedidos de continuarem nos seus cargos, por decisão do Congresso Nacional, Nereu Ramos passou a ocupar o principal Gabinete do Palácio do Catete, na condição de Presidente do Senado Federal.
Seu período presidencial foi de 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956, quando transmitiu a faixa presidencial a quem fora eleito legitimamente pelo povo: Juscelino Kubitschek de Oliveira.
O Deputado Federal Leoberto Leal, Sras. e Srs. Deputados, nasceu na cidade de Tijucas, foi Secretário da Agricultura do Estado e integrou a Câmara dos Deputados por diversas Legislaturas, tendo se destacado por sua luta incessante na obtenção de verbas para a contenção das cheias do Rio Itajaí-Açú, na criação da Universidade Federal de Santa Catarina e no esforço do nosso Estado ter a sua siderúrgica, com o aproveitamento das reservas de carvão mineral da região Sul.
Leoberto Leal, que se reconciliou com Nereu Ramos após pregar a renovação política dentro do seu PSD, seria, com toda certeza, candidato a Governador do Estado pela aliança PSD-PTB, em 1960, se a fatalidade não tivesse chegado.
Julguei oportuno fazer o presente registro. É evidente que não vivi aquela época, mas fui pesquisá-la e fiquei positivamente surpreso ao constatar tanto idealismo, fidelidade partidária aos princípios democráticos e tanta visão de futuro que tiveram estes três grandes vultos da nossa história contemporânea, que desapareceram precocemente, mas cujas obras aí estão como emblemas indiscutíveis e comoventes de como é possível exercer a vida pública e política com dignidade e espírito público, visando, acima de interesses pessoais e de grupos, o interesse do bem-comum, que é a razão primeira de quem optou por trilhar os íngremes caminhos da arte política.
Já se passaram 41 anos do desaparecimento de Nereu Ramos, de Jorge Lacerda e de Leoberto Leal. Mas é certo que eles continuam a fazer falta a Santa Catarina. Mas ao lado da saudade, que sempre dói, fica o conforto para todos nós que integramos esta Casa de podermos ser catarinenses e querermos o bem-estar e a felicidade da população. E eu me permito dizer que devemos nos espelhar nos exemplos imorredouros que nos legaram estes três políticos e que em suas biografias há que se destacar a passagem brilhante que tiveram no Congresso Nacional mostrando ao Brasil inteiro o valor da gente de Santa Catarina.
Deixo, pois, assinalada nesta sessão a minha reverência mais profunda e solene a Nereu Ramos, a Jorge Lacerda e a Leoberto Leal, e solicito que a digna Mesa Diretora dos nossos trabalhos haja por bem comunicar aos descendentes das três ilustres famílias esta singela homenagem, que é a homenagem do Parlamento Catarinense a três irmãos que tanto honraram o Parlamento brasileiro."
o Sr. Deputado Sandro Tarzan - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Pois não!
O Sr. Deputado Sandro Tarzan - Nobre Deputado, na verdade V.Exa. relembra um pedaço da história catarinense em relação a ilustres companheiros que já nos deixaram.
Eu não poderia, de maneira nenhuma, deixar de fazer este aparte, já que V.Exa. citou o meu Partido, o Partido Trabalhista Brasileiro - PTB -, que, na época, funcionava aqui no Estado de Santa Catarina como o fiel da balança. E tenho certeza absoluta de que já muito fez pelo Estado de Santa Catarina e, se Deus quiser, haverá de fazer muito ainda por toda a gente catarinense.
Muito obrigado!
O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Agradeço a V.Exa. pelo seu aparte.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)