93ª Sessão Ordinária - 21/10/2014
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, aqueles que nos acompanham pela TVAL, pela Rádio Alesc Digital ou aqui presentes nesta tarde de terça-feira.
Eu vim para este plenário, na tarde de hoje, para falar sobre um tema específico. Mas, deputado Kennedy Nunes, gostaria de parabenizá-lo pelo seu pronunciamento, pelo seu ponto de vista, pela sua reflexão sobre a mudança de opinião ao longo de algumas décadas na sociedade brasileira e catarinense acerca das questões ambientais, além de outras.
Gostaria de parabenizar v.exa. dizendo que também concordo com sua opinião, e que também tenho um passado de pequeno agricultor em uma região do estado, inclusive a nossa família produzia fumo que, na época, era curado ou secado à custa de lenha. Exclusivamente à custa de lenha, e por certo temos aí uma dívida histórica, não de consciência, porque era uma necessidade e continua sendo uma necessidade de diversos setores da pequena agricultura: manejar o meio ambiente. E esse manejo, por certo, prejudica muitas vezes.
Gostaria de dizer que, não obstante essa reflexão e esse aumento da consciência - inclusive v.exa. citou aqui além do nome da professora que ganhou o prêmio do ano e que de fato merece todos os parabéns - tivemos um período recente aqui neste estado em que dois shoppings foram construídos sobre o mangue desta cidade capital. Aliás, alguns bairros chamados chiques da capital também foram construídos sobre o mangue aí, sim, em décadas anteriores. Depois, quando vem a chuva e alaga tudo, reclama-se de São Pedro ou do prefeito porque não tem drenagem, mas se foi feito em cima do mangue ou é uma área alagadiça muito próxima do nível do mar - alguns centímetros apenas -, é uma área possível de ser alagada.
Então, a consciência que já existe na sociedade, e percebemos isso hoje inclusive fazendo contraponto com as nossas próximas práticas ou com aquilo que pensávamos e fazíamos na infância e na juventude, infelizmente, não é uma prática dos Poderes.
Eu ouvi, dentro de um prédio de um Poder aqui neste estado ao longo desses dois mandatos de deputado, lá no começo da legislatura anterior, uma descrição de como é Dubai. Não vou citar nomes, mas um deles v.exa. já citou.
Então, em Dubai se sai do quarto, pega o elevador e ao chegar lá em baixo tem um carrinho, tipo uma esteira rolante que leva o vivente ou a vivente até a água do mar. De sorte que a pessoa não precisa colocar o pé na areia para colocar o pé na água do mar, e isso contado como se fosse o máximo, o suprassumo da evolução humana na relação com a natureza. Ora, se alguém for ao mar e não se propõe a colocar o pé na areia, por que vai ao mar? Por que sai da cama? Quando eu vou à praia o que me dá mais satisfação é justamente caminhar na areia.
E isso não foi contado como história inocente. Foi contado alguns meses antes da Operação Moeda Verde, que, aliás, não sei no que deu, só sei que uma daquelas personalidades virou autoridade num outro estado da federação, lá em Tocantis. Ou seja, quando falei aqui que a Moeda Verde tinha mentor intelectual em Santa Catarina, justamente por ter ouvido esses relatos e esse posicionamento, inclusive de como era bacana ir à praia em Dubai sem colocar o pé na areia, e desenhando, defendendo que essa lógica de desenvolvimento poderia ser usada aqui nesta capital e no estado de Santa Catarina.
Isso está em debate no presente, por exemplo, com relação à Ponta do Coral. Existe um debate e aí se coloca assim: "Ou vocês querem aquele lugar abandonado, largado para vândalos usarem para colocar fogo, usar drogas ou vocês querem uma marina magnífica com hotel espetacular?"
Olha, acho que a opinião de bom senso da maioria da população seria nenhuma das duas alternativas, deveríamos todos dizer: sr. prefeito e sras. autoridades, nós queremos aquilo lá como espaço público, como área verde, como um local de passeio para o conjunto da população florianopolitana, catarinense e das pessoas das diversas partes do mundo que vêm a Florianópolis, e não apenas de uma elite de 5%, ou menos, que possam pagar para usufruir de um hotel maravilhoso e da marina com suas lanchas espetaculares.
Ah, mas não é assim! O acesso será livre para todas as pessoas. Como assim? O Costão do Santinho não é acesso livre de todas as pessoas. Se eu quiser ir à praia do Costão do Santinho, inclusive para pisar na areia, tenho que, como cidadão comum, sem dar carteiraço de deputado, terei que me apresentar para o vigilante, para o porteiro do hotel, que vai me perguntar o que eu vou fazer e aonde eu vou, na praia que é pública.
Enfim, me escrevi também para fazer essa reflexão, não para fazer críticas especificamente a ninguém e muito menos às pessoas que falaram antes de mim nesta tribuna, pelo contrário, gostaria de parabenizá-los a respeito da lógica do desenvolvimento da sociedade atual e da forma de pensar que, às vezes, evolui na média da população, mas as autoridades ou parte delas e os Poderes, às vezes, continuam menos desenvolvidos, para não dizer atrasados.
Quanto à questão da soda caustica no leite, apenas me inscrevi para xingar o capitalismo. Uso essa expressão porque isso fica evidente pela forma irracional como é organizada a produção e a distribuição das riquezas e dos produtos necessários à sobrevivência humana. Eu estava ouvindo no rádio a respeito desse procedimento e disseram isso é feito não para aumentar a quantidade do leite, mas para preservar o leite já que ele é recolhido a 700km do local onde ele é industrializado. Então, é preciso colocar um produto que impeça que o leite estrague antes de chegar dentro de um caminhão.
E aí um debate que existe hoje na sociedade, nos meios acadêmicos de discussão saudável, uma das posições é a necessidade de se consumir o alimento produzido o mais perto da sua casa possível. E, portanto, é irracional tomarmos leite na Grande Florianópolis que seja produzido a 1.000km de distância, porque até parece que em Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Antônio Carlos, Ascurra e Doutor Pedrinho as vacas não produzem leite.
Nós precisamos pensar e refletir numa forma de reorganização da sociedade que permita que as pessoas saibam com mais clareza o que estão comendo e bebendo, porque esse fato mostra de forma evidente que estamos confiando na livre iniciativa, na vontade daqueles que exercem aquela prática como uma forma de ganhar dinheiro e de competir numa sociedade cada vez mais competitiva e de mais difícil competição. E aí se desenvolve uma lógica de que inclusive se coloca veneno para as pessoas comerem para ver se alcança uma lucratividade possível de sobrevivência no mercado.
Mais uma vez não se trata de ofender moralmente qualquer pessoa e, sim, dizer que a lógica que tecnicamente exagera na racionalidade para produzir numa velocidade cada vez maior, do ponto de vista social, filosófico e humanitário é absurdamente irracional, porque para a saúde das pessoas faz muito mal, mas para a sobrevivência de uma iniciativa empresarial se torna e tem-se tornado - porque isso tem sido cada vez mais comum em Santa Catarina e no Brasil inteiro -, uma imposição da sobrevivência daquela empresa num mercado altamente competitivo.
Então, se faz necessária uma fiscalização nesse sentido para o bem da humanidade.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)